AGENDA INSTRUMENTAL – Keith Jarret se apresenta em SP e RJ

via blog ostejazz

Estão à venda os ingressos para as duas apresentações que o maior e mais criativo e influente pianista de jazz de todos os tempos fará no Brasil, dias 6 e 9 de abril, na Sala São Paulo e no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, respectivamente. Como adianta o título do espetáculo trazido ao país pela promotora DellArte, “An Evening of Solo Piano Improvisations” deverá brindar a plateia com o melhor da genialidade de Jarrett, indiscutível mestre do piano contemporâneo, que conjuga em sua peculiar interpretação técnicas de improvisação e digressões jazzísticas. 

 Nascido em Allentown, Pensilvânia, em 8 de maio de 1945, o músico dos músicos de jazz é um dos pianistas mais influentes dos últimos 25 anos. Com um estilo musical peculiar e grande versatilidade, Jarrett possui uma maneira de tocar muito pessoal. Não é um intérprete conciso: ao contrário, é dado a longas digressões, e muitas de suas peças são improvisos livres, mesclando trechos de caráter erudito.

Na música de Jarrett podemos encontrar alguns elementos bem característicos: o artista gosta de explorar os desdobramentos de melodias simples, líricas e cantantes. Porém, o aspecto mais importante da sua música talvez seja seu modo de tocar, seu pensamento musical. Isso fica especialmente claro quando ele interpreta standards. É como se ele nos levasse a imaginar as notas subentendidas, as frases não articuladas, os caminhos não tomados. As interpretações de Jarrett são temperadas por leves excentricidades cênicas. Ele tem, por exemplo, o costume de murmurar ou cantarolar enquanto toca. Ocasionalmente, também se levanta da banqueta para tocar de pé. No entanto, tais excentricidades ficam em segundo plano, nunca chegando a ofuscar o compromisso total de Jarrett com a música.

Serviço

São Paulo – 06 de abril de 2011 Sala São Paulo – 21h Praça Júlio Prestes, 16 – Tel. 11 3367-9500

Ingressos: Disque Dell’Arte, tel. 11 4002-0019 E pelo site www.ingressorapido.com.br

 Preços: Plateia Central — R$ 400 Plateia Elevada — R$ 350 Balcão Mezanino — R$ 400 Coro — R$ 400 Camarote Mezanino I — R$ 400 strong>Camarote Mezanino II — R$ 350 Camarote Superior — R$ 200 Balcão Superior — R$ 350

Rio de Janeiro – 09 de abril de 2011 Teatro Municipal – 21h Praça Marechal Floriano – Tel. (21) 2262-3501

Ingressos: Disque Dell’Arte, tels. 21 3235-8545 / 2568-8742 Preços: Frisa e camarote — R$ 400 Plateia — R$ 400 Balcão nobre — R$ 400 Balcão superior — R$ 250 Galeria — R$ 120

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Verbalizando a música…MÚSICA BRASILEIRA E CINISMO GERAL

 por Frederico Mendonça de Oliveira

A última real manifestação nacional de música brasileira como arte e cultura foi a Bossa Nova. Até houve quem acusasse o movimento de ser a americanização do samba. Diziam isso o Tinhorão e um bando de leigos que não alcançaram entender a harmonia impressionista, mas a caravana passou bonito. Diziam que o movimento fora concebido em Copacabana, que os rapazes se vestiam assim e assado, que tudo ocorreu em apartamentão à beira-mar e produzido por uma elite carioca, por aí.

João Gilberto e Tom Jobim à beira-mar

 Bem, que “pensem” o que quiserem. O importante é que os músicos de verdade no mundo inteiro enxergaram com instantâneo deslumbramento o conteúdo real da coisa, a despeito dos problemas de alguns incapazes despeitados. E a Bossa Nova ficou, não só no Brasil – aqui muito menos que alhures; aliás, o que de bom permanece por aqui? – mas mundo afora, cultuada por jazzistas e especialistas em música na forma de um gênero sagrado.

Veio a intervenção, para desespero geral e para confirmar que somos proveta de testes para o Império. Começou o horror com a instauração dos festivais de canção, do que resultaram as úteis deformidades tão caras aos interventores. Era essencial desviar o curso daquele Brasil que despontava como o melhor em tudo no mundo: arte, ciência, até futebol. Só não tínhamos tecnologia industrial, mas JK já ia providenciando isso. Aliás, por ser um presidente mais sacudido e informal que seus antecessores e porque imprimiu uma feição de modernidade ao País, acabou apelidado de “presidente Bossa Nova”. Só no jeito de governar, claro, pois musicalmente oscilava entre uma porta e uma toupeira. Aliás, como todos os que o antecederam e sucederam. Coitados.

Juscelino Kubitschek, o presidente bossa-nova

A intervenção veio braba: habilmente incluindo grandes talentos musicais surgentes como Milton, Chico, Edu Lobo, Dori Caymmi, Francis Hime, Caetano e Gil – os dois últimos com ressalvas –, a ação de sucessão imposta à Bossa Nova ganhou credibilidade além do grande golpe torpe de arregimentar e dar a leigos o direito de validar formas de canção. Então coisas lindas iam sendo misturadas a porcariada visando instituir descartabilidade e consumo de canção, ao contrário do espírito da Bossa Nova: pode-se afirmar que toda a produção do movimento era durável e visava qualidade, não priorizando vender, que era eventual, e quase tudo realizado  naqueles tempos ia para mãos de músicos ou estudiosos. A Bossa Nova foi música viva.

Veio o cinismo como por encanto. Assim os agentes do Império operam. De júris compostos por gente normalmente sem conhecimento musical nenhum, de platéias de leigos normalmente imbecis em música e de outros fatores cuidadosamente trabalhados veio o grande desvio: os festivais foram impostos e se alastraram como opção de enriquecimento para os compositores que chegavam naquela safra, e o que era cultura e arte foi virando lazer e entretenimento, e só os músicos perceberam que desastre se operava naquela alteração. Só músicos viam que a música fora criminosamente relativizada, que a “novidade” era destrutiva e sem alternativa qualquer. 

“Deixai-me fazer as canções de um povo e não precisarei lhe ditar as leis”, disse Kon Fu Tsé, que os agentes do Império encarregados de intervir em culturas denominaram Confúcio, visando associar filosofia a confusão. E assim a canção multinacional, que ocorreu concomitantemente à ditadura militar, reinou por cerca de 20 anos, estando todos os que trilharam carreiras via EMI-Odeon (inglesa), Philips-Polygran (holandesa), BMG-Ariola (alemã) e mais CBS e RCA (americanas) muito ricos. E o povo caiu como patinho em vários embustes, sendo o mais ridículo deles a ilusão de que a canção resistia à ditadura. Muito pelo contrário, mesmo que os “canários” afetassem insatisfação para com o poder. Ocorria que eram protegidos por ele, sendo o episódio Vandré e os “exílios” na era Médici simples pantomima. Vandré saiu lesado porque já era um confuso, apenas aflorou o broto a partir do episódio da chata Caminhando – que as platéias de leigos, claro, amaram, por ser musicalmente primária, ao alcance deles.

E desde 1985 veio a sucessão da MPB: axé, breganojo, pagode, pocotó. Bom proveito, Brasil!

*Frederico Mendonça de Oliveira é músico, artista plástico e escritor