From John To Ton

por Renan Damasceno

 



A terceira passagem de John Pizzarelli por Belo Horizonte em menos de 10 anos reforçou ainda mais a ligação desse guitarrista norte-americano, de afinação e suíngue ímpares, com a música mineira. A apresentação no Teatro Oi Futuro, uma casa pequena para cerca de 350 pessoas, na sexta-feira (17/6), foi mais descontraída do que as anteriores, permitindo a John contar histórias e enumerar suas influências brasileiras: das alterosas, lembrou da vez em que Milton Nascimento assistiu a seu show, no Rio, de Paulo Braga e Toninho Horta.Embora eu tenha visto o concerto de cerca de duas horas a seco — em 2009, no Music Hall, o bar servindo rum e uísque deixou o clima mais saboroso –, percebi a destreza de Pizzarelli ao comandar um repertório cheio de standards e músicas populares estadunidenses intercaladas com o mais fino do instrumental reunido em quase trinta anos de carreira. Seu fiel baixista e irmão Martin Pizzarelli, o baterista Tony Tedesco e o pianista Larry Fuller completavam o quarteto.No setlist, composições e músicas imortalizadas por Duke Ellington, Nat King Cole, irmãos Gershwins; músicas e arranjos próprios; a última parte com a sequência de Desafinado, Só Danço Samba e Garota de Ipanema; e o encerramento (como há dois anos) com Can’t buy me Love, uma de suas (des)construções do álbum Meet the Beatles, de 1998.

Antes da feijoada do dia seguinte, servida no almoço do tradicional Paladino, aquele ali no caminho entre a orla da Pampulha e a Toca da Raposa, John pode conversar mais à vontade, durante um workshop e jam session ao lado de Toninho Horta, que está de volta a terra natal para comandar o projeto Aqui Ó Jazz (participe do grupo no Facebook e conheça o site).

O encontro, que contou ainda com Juarez Moreira, foi no Conservatório de Música da UFMG.

JOÃO GILBERTO

Meu pai (o guitarrista de swing jazz, Bucky Pizzarelli) ouviu João Gilberto no rádio do carro e comprou o disco Amoroso logo em seguida. Lembro de vê-lo ouvindo ‘S wonderful e Besame Mucho e ele sempre voltava ao início tentando compreender como Gilberto avançava e atrasava o tempo. A gente ouvia só o lado A, de tanto que ele repetia as músicas tentando compreender. Há pouco tempo, com meu Ipod, passei a ouvir o lado B, Zíngaro, All of Me, uma vez que não tem a divisão … (risos).

VIOLÃO BRASILEIRO
Existe o jeito de João Gilberto tocar (explica elevando a mão direita mais alto), existe o jeito de Toninho tocar (separando a mão esquerda do corpo, um pouco mais baixo em relação à direita). Também há o jeito do João Bosco. “Brrrinquedo de papel marchê” (dedilhando ao violão). Eu tento fazer algo no meio de tudo isso. São diferentes, ideias diferentes, nas mesmas seis cordas. É incrível.

TONINHO

Ouvi Toninho Horta em um K7 que ganhei da minha ex-namorada. Um dia ele apareceu no estúdio que estava gravando, em Nova York. Perguntei ao pessoal que me acompanhava. “Quem é aquele?”. “Não sei, acho que é Ivan Lins”. Mas na hora que soube que era Toninho, levei o tape para ele autografar.

Certa vez, no nosso apartamento em Nova York, ele apareceu. Meu pai chegou com o Toots Mondello (importante nome do sax alto do swing jazz). Toninho pegou a guitarra e tocou, acho que Gershwin, e todo mundo ficou maravilhado. Meu pai balançava a cabeça, boquiaberto, e me perguntava. “Who is that guy?”

MUSICALIDADE

Aprendo primeiro a harmonia para depois entender o acompanhamento. Aprendi isso, quase instintivamente, vendo o meu pai tocar. Eu sabia acompanhá-lo e, quando ele pedia para eu solar, já sabia onde estavam os acordes. Fica mais fácil, por exemplo, quando você se perder no solo: é só voltar na harmonia. Aprendi ouvindo muitos discos: Joe Pass, João Gilberto. Do meu pai, absorvi as harmonias. A música é o carro e a melodia, a gasolina.

*Renan Damasceno é repórter de esporte do jornal Estado de Minas e editor do blog Moviola Pós-Moderna

 

Os 80 de João: o mundo, fora

por Frederico Mendonça de Oliveira

Um expert incensado do jazz declarou ultimamente, a propósito dos 80 anos de João Gilberto, que considera o artista brasileiro a maior manifestação do cool. Gente que conhece as duas coisas, João e o cool, concorda sem titubear, porque é gritante. João é graveto especial para o feixe em que estarão Paul Desmond, Dave Brubeck, Chet Baker, Joe Morello (a despeito daquele solo desastroso em Take Five: parece um quebra-quebra no apartamento vizinho, nada cool) e, claro, Gerry Mulligan, além de outros menos visíveis no filme. Mas João é cool “no úrtimo”, como dizem em certas montanhas ao sul do estado de Minas Gerais. E, se a definição de cool para a maioria dos que ainda não voltaram às árvores ainda traz dúvidas ou vaguezas, não se importe: a de Bossa Nova está mais distante e confusa ainda. Mas João foi a Bossa Nova, depois manifesta uma neobossanova, desde sempre é inarredavelmente samba, hoje é canseira de doer quando se apresentando ao vivo, desde por volta daquele JG in Montreux, quando concretizou seu último estilo de se apresentar: sentado, balançando a perna, tocando interminavelmente sambas que acabam logo muito chatos pra quem ouve, sejam leigos ou não… e agora chegou aos 80.

O homem é realmente um especialmente, como disse Guimarães Rosa sobre sua personagem João Urúgem. Primeiro, lutou como louco para desencadear a mais deslumbrante manifestação de modernidade já vivida no Brasil, quando realizou Chega de Saudade escoltado pelo gênio de um Tom Jobim. Seus três primeiros discos são um tesouro, sendo os dois primeiros um banho de cool em todos os sentidos. Uma das definições pra cool é “elegante”. O gato, portanto, é cool. O cão, jamais. Mas o que emerge de Chega de Saudade e O Amor, o Sorriso e a Flor, os dois primeiros discos, é pura e cintilante elegância, a ponto de podermos dizer que a partir dali a música brasileira foi feita música civilizada, ingressando na era da estética funcionando como fator determinante e regulador.

 Isso foi o miolo da Bossa Nova. O terceiro disco, João Gilberto, já foi definido por João como sendo… samba. Mas foi bifacial: com Walter Wanderley e grupo – órgão Hammond B3 e o trompete do Papudinho em uníssonos divinos – João fez releituras irretocáveis de Dorival Caymmi, Saudade da Bahia e Samba da minha terra, além da também memorável Trem de ferro, marchinha de Lauro Maia, em que a combinação B3/trompete tornaram a faixa uma peça de fina apreciação. A outra parte do disco foi gravada pedindo o socorro do Tom, e ali já se manifestava publicamente a desarmonia entre os dois homens que fizeram valer a harmonia definitivamente para a música brasileira. 

A entrada de Walter Wanderley nessa história é coisa que muita gente se perguntou por quê. Eu, aliás, me perguntei. Um belo dia, estando na casa da Maricene Costa, em São Paulo, ouvi dela que, quando namorou o João e os dois passeavam pela noite na Major Sertório, foco da modernidade na Paulicéia, uma porta de boate se abriu e João ouviu o som que vinha lá de dentro. Era o som do grupo do WW. João exclamou: “É isso que eu quero!”, e daí não sei como se deu a coisa, mas o resultado todos sabemos: o terceiro disco teve parte dele exibindo esse som.

João Gilberto foi o músico mais definidor para a música popular brasileira. Tom também foi gigante, mas o violão de João fez a diferença, além de ter sido praticamente dele a concepção musical renovadora, o quê e o como da modernidade. A virada produzida pela pesquisa deste baiano de Juazeiro simplesmente inverteu a visão de música popular no mundo.

Mesmo tendo sido logo alvo de fortes mordidas dos tubarões do comércio, como o desvio Burt Baccarah e quejandos, mesmo tendo logo sido manipulada para amaciar o comercialóide pop visando suprir um mercado da burrice light, a criação de João bateu fundo mesmo foi no jazz e na questão estética geral, do que nasceram trabalhos de maestros como Michel Legrand e os hoje magníficos Claus Oggerman, Jeremy Lubbock, Robert Farnon, sem contar Claire Fischer e André Previn. E não esqueçamos que a internacionalização do som do Stan Getz não se daria sem o Getz/Gilberto. João não fez tudo isso ciente de que seria assim. O que ele fez foi fazer o que fez; o resto explodiu porque explodiu.

E hoje? Bem, hoje é Tiririca. Hoje é nada. João é o maior dos equívocos: senta num banquinho, toca horas a mesma coisa monocórdica balançando as pernas, canta dez vezes ad nauseam cada canção, e a platéia diante dele é um monte de leigos bovinos entediados mas cumprindo o papel que a mídia lhes impõe: admirar o grande gênio, mesmo sem entender uma nota do que ele toca.

Quanto ao cool, nosso querido João, que sempre falou mansinho e baixinho, andou trocando uns berros com um vizinho no prédio onde mora no Leblon, Rio. Não sei o que o vizinho fez, mas ele virou bicho. E o vizinho revidou no mesmo nível, esmurrando a porta dele João e acusando-o de fumar maconha direto. E João fuma mesmo, sempre. Bem, e daí? Ele já é inimputável… mas, qualquer coisa, é só pedir socorro ao Boca de Sovaco FHC, que agora abraçou a causa da descriminalização do jererê. Quem sabe? O Gallochmouth é capaz até de querer pitar unzinho com o João… mas vai levar é chá de cadeira na portaria!