Ícone do rock progressivo nacional, O Terço continua na ativa

publicado no jornal Estado de Minas em 16.03.12

A brincadeira parte do único remanescente da banda original – coincidentemente, o mais velho da turma. “Já estamos encomendando a banheira de formol e a câmara hiperbárica”, diz, com a indispensável ironia, Sérgio Hinds (guitarra, viola e vocal), de 63 anos. Ao lado de Sérgio Magrão (baixo e vocal), de 61, e Sérgio Mello (bateria e percussão), de 40, ele dá sustentação à reverenciada formação clássica de O Terço, liderada por Flávio Venturini (piano, teclados e vocal), de 62.

Na ativa desde 2005, quando voltaram aos palcos para gravar CD e DVD ao vivo, os integrantes da lenda viva do progressivo nacional assumem, sem medo, a posição de dinossauros do rock. No show deste sábadoà noite, no Grande Teatro do Palácio das Artes, não vão faltar hinos (Criaturas da noite, Hey amigo e Casa encantada), além de criações mais recentes (Suíte e Antes do sol chegar, entre outras). Adepto do gênero e líder do SagradoCoração da Terra, o violinista Marcos Vianna é o convidado da turma.
Ao mexer no baú, Flávio Venturini acabou encontrando canções inéditas em fitas de rolo que espera reaproveitar em novos discos. Entre elas está a ópera-rock Raposa azul, parceria dele com Hinds. A história do grupo é narrada em pequenas crônicas no inédito livro Eu e O Terço, de Irinéa Maria Ribeiro, viúva do baterista Luís Moreno: a banda que sempre privilegiou hard rock, folk e MPB aderiu ao progressivo exatamente depois da chegada de Venturini. Hoje, o mais fanático pelo gênero é Sérgio Mello, o integrante mais jovem da turma.
“Continuo com a carteira de sócio atleta da jurisdição pró-rock”, brinca o baterista, que ouve e pesquisa o progressivo no mundo inteiro, especialmente na Europa, onde o gênero se expande em grandes festivais promovidos na Alemanha e na Dinamarca. “Os maiores nomes são os que atualmente fazem grandes shows no Brasil”, afirma Mello. O progressivo, explica ele, nasceu com os Beatles, que juntaram rock’n’roll e música clássica sob a batuta do maestro George Martin.
Sgt. Pepper’s é um clássico”, constata Sérgio Mello. Mas o pioneiro “progressista” foi Abbey road, o 12º álbum dos Beatles, lançado em 1969. “Há ligação da primeira à última faixa, como que para contar uma história”, ensina o baterista. No Brasil, afirma Sérgio Hinds, não se vê estímulo para a formação de grupos do gênero. “Não há banda sem tecladista”, acrescenta o guitarrista. Além da importância do equipamento para quem domina o instrumento, ele é difícil de tocar. “Tem de estudar muito para aprender”, resume. “Daí a tendência de sair mais para o eletrônico”, emenda Flávio Venturini.
A marca do progressivo é a forma como ele se identifica com a música erudita, sobretudo em relação a temas e suítes-temas. A harmonia é essencial à instrumentação, lembra Flávio. Apesar de hoje usarem instrumentos digitais, os integrantes d’O Terço destacam que todos oferecem timbres idênticos aos da instrumentação setentista. “O importante é reproduzir os arranjos originais”, ressalta Flávio.
Não por acaso, o rock progressivo se expande com mais vigor em Minas Gerais em relação a outros estados. “Tem tudo a ver com a gente. Os próprios discos do Clube da Esquina, da década de 1970, são bem progressivos, assim como os instrumentais de Milton Nascimento”, analisa Venturini. Aliás, Joe Anderson, vocalista do Yes, é fã de Bituca. Cartoon e Cálix estão entre as jovens bandas mineiras progressivas citadas pelo cantor e tecladista ao se referir à boa fase do gênero por aqui.
Na rede 
No Cultural, bar musical de Juiz de Fora, os músicos d’O Terço começaram a perceber a renovação de seu público. “O mais velho da plateia tinha 25 anos, o que nos surpreendeu”, revela Sérgio Hinds, admitindo que as redes sociais se tornaram instrumento indispensável para essa mudança.
“A garotada também gosta do passado, de Beatles e de progressivo”, afirma Flávio Venturini. Este ano, a intenção do grupo é criar trabalho em estúdio, que funciona na casa de Flávio, num condomínio de luxo na Grande BH.
Hinds diz que a criação tem a ver com os ciclos da vida: “Os próprios músicos começam a estudar mais, a buscar música mais elaborada. O rock progressivo sempre foi produto disso”. Se na década de 1970 o gênero se sustentava graças ao boca a boca, Sérgio Mello diz que hoje isso se deve aos jovens e a seus laptops. “Pesquisa é a origem de tudo. Se éramos ratos de sebo, hoje estamos na rede”, conclui o baterista.
Ao vivo 
Lançado em CD e DVD, o trabalho que marcou a volta d’O Terço ao mundo fonográfico foi gravado no extinto Canecão carioca. Apesar da boa procura, o DVD foi retirado das prateleiras. O problema, de acordo com a banda, deve-se ao fato de o produtor PH Castanheira tê-lo lançado sem autorização da Agência Nacional de Cinema (Ancine), levando a gravadora a recolher o produto em decorrência de problemas jurídicos. O CD está disponível nas lojas e no site www.somlivre.com.br. 
 
O Terço
Sábado, 17 de março, às 21h. Grande Teatro do Palácio das Artes, Avenida Afonso Pena, 1.537, Centro. Plateia 1: R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia-entrada). Plateia 2: R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia). Plateia superior: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia). Classificação: livre. Informações: (31) 3236-7400.

O coração mineiro de Danilo Caymmi

No fim de semana em que o artista se apresenta no projeto Sesc MPB em BH, Notas Geraes relembra grande disco do caçula dos Caymmi

Em 1977, Danilo Caymmi lançava seu primeiro disco solo. E logo na primeira frase da faixa inicial, o carioca já deixava claro qual é o espírito desse belíssimo trabalho: “Vou por aí, levando um coração mineiro..”

Pois é, “Cheiro Verde” traz uma aconchegante atmosfera das Minas Gerais (terra de sua mãe Stella Maris), tal qual uma prosa à beira do fogão-a-lenha. Mas também evoca temperos de uma época decisiva para a música brasileira, de assimilação do cancioneiro de Caymmi e Jobim e, paralelamente, de uma inventividade e coragem para traçar novas identidades.

Resultado disso é a construção de dez faixas saborosíssimas, passando por sambas cativantes, como “Mineiro”, pela bela valsa “Juliana”, até chegar em músicas de extrema irreverência e mesmo psicodelismo, como “Racha Cartola” e Vivo ou Morto”.

A relação de músicos do disco mostra que Danilo se cercava na década de 70 de um time de grandes instrumentistas (com vários mineiros, obviamente), como Cristóvão Bastos, Airto Moreira, Hélvius Vilela, Pascoal Meirelles, Nelson Ângelo e Novelli. Apesar de Toninho Horta não estar no disco, o universo do guitarrista parece ser lembrado a todo momento, como em “Codajás”.

Não por coincidência, o primeiro álbum do caçula dos Caymmi foi o sensacional “Beto Guedes, Novelli, Danilo Caymmi e Toninho Horta”, de 1973, com uma contra-capa marcante.

No reino da palavra, as letras de Ana Terra (cujo selo independente lançou o disco) também dão as tonalidades de um momento especial vivido por gente talentosa de coração aberto:  “Pé de vento, você que me faz água mansa de rio..” (em “Lua do meio-dia”, aos poucos decifra-se que uma das vozes do uníssono é de… Milton Nascimento). Por falar em voz, “Cheiro Verde” apresenta um Danilo Caymmi muito diferente do timbre grave que marcou sua trajetória (na “Banda Nova” de Tom Jobim, por exemplo). Durante todo o disco, ele se desloca por uma região vocal aguda e audaciosa, como em “Botina”. Há que se destacar também a flauta de Danilo, que dialoga com vertentes de jazz e rock (um Ian Anderson das montanhas?)

Pra quem estiver em Belo Horizonte nesse fim de semana, um excelente programa é cruzar a famigerada Feira Hippie da Avenida Afonso Pena e adentrar o oásis do Parque Municipal para curtir, de graça, um show de Danilo Caymmi. A apresentação dá início ao Sesc MPB 2012, que já trouxe artistas como Leila Pinheiro, Joyce e Boca Livre. O bem-sucedido projeto tem o formato de sempre ser aberto por um artista local, que depois divide o palco com o convidado especial antes de passar a bola. Dessa vez, a escolhida foi Regina Souza, cantora competente sobrinha de Betinho, Henfil e Chico Mário (ela gravou um disco só com composições do violonista).

Para esse domingo, 18 de março, a partir das 11horas, é esperado o Danilo Caymmi que marcou época com músicas como “Andança” e “Casaco Marrom”. Mas fica a expectativa de rolar algo daquele saudoso 1977..

Celso Moreira lança novo disco no Museu da Pampulha

Como bom mineiro, Celso Moreira construiu uma trajetória consistente na música instrumental brasileira, sem grandes exibicionismos, com energia direcionada ao talento que emprega tanto como compositor, violonista e arranjador. Seu violão está em obras emblemáticas, como a Missa dos Quilombos, de Milton Nascimento e Pedro Casaldáliga.

Em 2008, lançou o primeiro disco solo, Celso Moreira Autoral , que apresenta sua veia compositora em faixas de grande elegância e domínio técnico.

Em 2012, Celso Moreira lança o segundo álbum, com releituras de belas obras do cancioneiro, com passagens obrigatórias por Noel Rosa e Tom Jobim.

O trabalho será apresentado no Museu de Arte da Pampulha no próximo domingo, contando com feras que participaram do disco, como André Limão, na bateria, e Enéias Xavier, no baixo.

CELSO MOREIRA LANÇA “CENAS BRASILEIRAS”

A paisagem que envolve o Museu de Arte da Pampulha é a cena escolhida pelo instrumentista e compositor para apresentar ao público seu novo CD na abertura da edição 2012 do projeto Domingo no Museu

Gravado, ao vivo, no Teatro Municipal de Sabará, em 2011, “Cenas Brasileiras” é o novo álbum de Celso Moreira. Com um repertório inédito e autoral, mesclado com grandes sucessos da música popular brasileira, como “Um a Zero”, de Pixinguinha; “Conversa de Botequim”, de Noel Rosa; “Água de Beber” e “O Nosso Amor”, de Tom Jobim e Vinícius de Morais, o CD do compositor será apresentado ao público, pela primeira vez, no Domingo no Museu, realizado pela Veredas Produções, no dia 4 de março, às 11 horas.

Os ingressos custam R$ 10,00 e podem ser comprados no Museu e na loja Acústica CD´s a partir do dia 27 de fevereiro, com a renda revertida para a conservação do Museu.

O novo projeto de Celso Moreira contou com um trio de peso, fundamental para a apresentação que resultou em seu novo CD. Os músicos André Limão Queiroz, na bateria; Christiano Caldas, no teclado; e Milton Ramos, no baixo, foram os responsáveis pelo apoio ao compositor durante a gravação e serão os instrumentistas que o acompanharão no Projeto Domingo no Museu. O CD “Cenas Brasileiras” possui, também, a participação especial de Célio Balona, Nivaldo Ornelas, Cléber Alves, Enéias Xavier, Esdra Neném Ferreira e Chico Amaral.

Mineiro, Celso Moreira nasceu em Guanhães, em um berço musical. Seu pai, Ridávia Moreira e seu irmão, o guitarrista e compositor Juarez Moreira são exemplos desta forte ligação da família com a música. Em sua carreira, grandes parcerias e amizades com ícones da música brasileira, entre eles Toninho Horta, Nivaldo Ornelas, Wagner Tiso, Fernando Brant e Murilo Antunes.

Seu primeiro álbum solo, intitulado “Celso Moreira Autora”l, foi lançado em 2008. O sucesso deste trabalho foi relevante e proporcionou, ao instrumentista, a premiação de melhor disco instrumental do ano de 2008, por meio do Prêmio Marco Antônio Araújo, realizado pelo BDMG Cultural. Em seu currículo, podemos listar, também, sua participação na gravação da trilha sonora do balé “O Último Trem”, do Grupo Corpo; premiações no BDMG Instrumental, em 2001 e 2006 e, apresentações com diversos nomes da MPB, entre eles, Milton Nascimento, em sua turnê com a “Missa da América Negra”, pelo Brasil e Espanha, dentre outras conquistas.

Domingo no Museu

Tradicional no cenário cultural de Belo Horizonte e do estado, o Projeto Domingo no Museu apresenta ao público ícones da música em um dos cartões postais da capital, o Museu de Arte da Pampulha (MAP). Patrocinado pela Usiminas e pela Tecnocal, por meio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura, o projeto já recebeu artistas como Alda Rezende, Paulo Bellinatti, Weber Lopes, Trio Madeira Brasil, Duo Gisbranco, Paulo Freire e André Mehmari. A realização do Domingo no Museu no MAP foi responsável por consolidar o local como um espaço de lazer e cultura para todos os belo-horizontinos.

SERVIÇO:

Domingo no Museu – Lançamento do CD Celso Moreira – “Cenas Brasileiras”

Local: Museu de Arte da Pampulha (Av. Otacílo Negrão de Lima, 16585)

Data: Dia 04 de março, às 11 horas

Ingressos à R$10 (inteira)

Locais de venda: No Museu de Arte da Pampulha e na loja Acústica CD’s (Rua Fernandes Tourinho, 300) – A partir do dia 27/02

Informações: (31) 3277-7996