Com propósito de preservação e difusão cultural, acervo de discos de vinil em Alfenas possui cerca de 6 mil unidades

Reportagem e imagens: João Marcos Veiga

Reportagem publicada no jornal Correio Trespontano

Num primeiro momento, temos poucos sinais do que nos espera ao descer um lance de escadas de uma casa situada no Aeroporto, pacato bairro residencial na cidade de Alfenas. Mas é ali no porão da residência – em frente a um bem cuidado pomar perfumado por limoeiros, mamoeiros, acerolas e pitaias – que nos deparamos com um dos maiores acervos de discos do sul de Minas, com mais de 6 mil exemplares.

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No espaço de cerca de 60 metros quadrados está representada boa parte da produção fonográfica nacional e internacional do século 20. Elvis Presley, Chico Buarque, Janis Joplin, Odair José, Michael Jackson – ao percorrer com os olhos as quatro paredes tomadas por capas, entra-se em vertigem de referências dos mais variados estilos. O acervo pertence a Marco Valério Tiso Veiga (54), farmacêutico e funcionário do Fórum Trabalhista da cidade.

A coleção teve início de forma despretensiosa. Da adolescência já trazia os discos de rock progressivo; aos poucos foi ficando com os LPs de irmãos e amigos, numa época em que se dava pouco valor aos bolachões, deixados de lado (ou até na lata de lixo) em preferênciaaos emergentes CD e MP3 nas décadas de 1990 e 2000. De família de músicos, não era difícil reunir pequenos acervos de qualidade dispersos entre pessoas próximas – Marco confere espaço de destaque ali a todos os trabalhos do irmão Wagner Tiso, em sua maioria com dedicatórias aos pais e sobrinhos.

Mas a proposta tomou realmente outra dimensão com as primeiras doações em maior volume. “A primeira alavancada veio com o tio Paulinho”, conta sobre o tio de sua esposa, que se desprendeu de 200 discos. Na festa de aniversário de 50 anos, Marco pediu de presente discos de vinil. Um amigo de juventude, Keninho, de Carmo da Cachoeira, foi além – passou de uma vez só 80 unidades do fino da música brasileira. “Depois vieram outras, como do Brexó, de Três Pontas, e de pessoas que ficavam sabendo que eu estava colecionando. Discos de gente que tinha morrido e a família queria se desfazer. Até que veio a do Bituca”, relembra Marco Valério, sobre os mil vinis que ganhou de seu padrinho Milton Nascimento.

A aquisição do acervo ilustre (parte do que dispõe o cantor residente no Rio de Janeiro) trouxe discos de claro valor simbólico, uma vez que vários dos materiais guardam dedicatórias de jovens que se iniciavam à época no mundo musical (como o uruguaio Jorge Drexler) e de amigos artistas, como Tavinho Moura, Nivaldo Ornelas, Marcus Vianna, Juarez Moreira, dentre outros, revelando admiração mútua intimidade entre parceiros. Algumas mostram-se raras, como um disco dado pelo lendário baterista Dom Um Romão a Milton – a assinatura é de 1974, em Nova York, mesmo ano do lançamento do trabalho em solo americano. Outras capas trazem apenas uma assinatura de Milton, para atestar que faziam parte de sua eclética coleção, a exemplo de um disco de Wanderléa de 1977.

Ocupando cinco prateleiras, não é difícil perceber que o maior destaque ali é dado à discografia de Milton Nascimento, posicionada em ordem cronológica a partir do álbum lançado em 1967 que leva o nome do artista, além de edições especiais, como a reunião numa mesma edição de “Minas” (1975) e “Geraes” (1976). O acervo alfenense ainda traz outras discografias completas, como dos grupos Pink Floyd, Gênesis e Som Imaginário.

Apesar de alocar LPs especiais e muitas vezes raros de alto valor no mercado informal (Beatles, Mutantes, Secos e Molhados, Janis Joplin, Tropicália, “disco do Tênis” de Lô Borges), o acervo alfenense não tem restrição de gênero. “A coleção tem de tudo. Estilo tem qualquer um, carnaval, clássico, gospel, novela”, informa Marco. Assim, separados por poucos centímetros podem estar Xuxa e Hermeto Pascoal, Bee Gees e Mozart. Mesmo com tal diversidade e quantidade, o acervo tem organização criteriosa, disposta em gêneros e com preocupação na disposição visual, limpeza e arejamento, inclusive com produtos que controlam a humidade no ambiente.

Marco Valério passa diariamente ao menos duas horas dedicadas exclusivamente ao acervo. Cada LP que adquire passa por um processo que inclui a lavagem do disco (com secagem ambiente), limpeza, troca de plástico, avaliação da capa – algumas são refeitas e inserção numa tabela digital que distingue informações diversas, como doador. “A ideia não é só colecionar, mas também recuperar discos, já que muitos chegam sem condições.” Num segundo momento, Marco ouve o álbum todo (a sua disposição estão quatro pick-ups, dois amplificadores e quatro caixas de som de alta qualidade), incluindo a marcação à caneta da faixa que mais gostou. O empenho e entusiasmo com tal ritual são bem conhecidos do que acompanham a saga do alfenense.

Apesar da dedicação ao acervo, Marco Valério não estabelece um sistema formal de aquisição, troca e venda. Tudo é avaliado ocasião a ocasião. Mesmo com um boom na procura por vinis, no interior ainda é barato adquiri-los, até por R$ 2. Em algumas poucas ocasiões opta por compras pela internet em busca de exemplares faltantes. “Já tenho quase tudo que queria. Agora tô comprando pouco”, conta. Já as trocas e vendas ocorrem informalmente e em eventos específicos na cidade, como o Encontro dos Músicos de Alfenas e região. Mas tem um detalhe – só entram em negociação os vinis repetidos. E os mais especiais para o colecionador (como os de Milton Nascimento), só são passados pra frente caso ele tenha outros dois muito bem guardados no porão musical.

Com a expansão dos cursos da Unifal, observou-se uma maior busca por LPs na cidade, com algumas trocaspor iniciativas de bares, como o Januário. No entanto enfraqueceram-se outros espaços de socialização para esse propósito, como a que ocorria aos domingos na feira antes do vendedor Sinval não mais cruzar a estrada de Boa Esperança à procura sobretudo de discos sertanejos – o que permitia a Marco frutíferas trocas por almejados exemplares de MPB e rock.

Apesar do acervo ser particular e não estar aberto regularmente, Marco Valério recebe pessoas interessadas em conhecer, adquirir e trocar vinis. Mas o intuito é ir além do aspecto mercantil, tornando o espaço um ponto de vivência cultural. Para 2017 ele planeja realizar no próprio local pequenos seminários e debates sobre gêneros e artistas, ministrados por músicos e professores residentes na cidade e regados a vinho – naturalmente com os conhecimentos repassados sendo exemplificados com discos do acervo e com o canto dos pássaros do quintal só sendo interrompidos pelo delicioso chiado do bom e velho disco de vinil.

 

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