Ummagumma Classic Rock Festival e a economia da comunhão em Três Pontas

Três Pontas recebeu no último fim de semana (29 e 30 de abril) o Ummagumma Classic Rock Festival, tendo como anfitrião o grupo local que arrasta multidões de exigentes fãs de Pink Floyd há mais de uma década Brasil a fora. Reunir bandas covers e outras de pegada mais autoral num evento fechado, pago, aparentemente não traz grandes novidades. Mas é no detalhe que mora o diabo, deuses e orixás que só dão as caras numa conjugação de fatores nada casuais, como nesses dois dias mágicos que geraram momentos únicos pra quem os desfrutou.

A cidade berço de Milton Nascimento por si só já carrega uma aura atrativa, mexe com o imaginário, fascina o olhar de quem circula por charmosas ruas, praças e se depara com sua igreja majestosa. Porém isso não basta, mas também está no caldo que deu chão a uma geração contemporânea de talentosos e competentes músicos da cidade e região. A seleção de grupos que se apresentou no festival espelha exatamente isso, em formações que transcendem a desgastada palavra “cover”.

Ummagumma

Da irreverência, repertório catártico e presença de palco forte e política da Marginália, encabeçado por Isabela Morais, passando pela maestria sonora do Compasso Lunnar – com releituras e autorais lisérgicas num rico diálogo com o Clube da Esquina, rock e jazz presenteadas pela guitarra do mago Fredera – até tributos de Stones e Doors à altura do desafio de se recriar sonoridades tão únicas. Quem viu sabe que isso foi alcançado. Já para o Ummagumma o momento teve caráter ainda mais especial, por ter sido o primeiro show do grupo em sua terra natal na dimensão que plateias de Belo Horizonte, Rio de Janeiro e outros pontos já estão acostumados, além de ter sido ali a estreia da turnê “You Gotta Be Grazy”. A paisagem sonora proporcionada diante de um som 5.1 (acima do quadrofônico), num ambiente a céu aberto levou o público de milhares de pessoas a uma experiência auditiva incrível, sobretudo pela releitura do lendário álbum “Animals”, fazendo com que urros, falas, ganidos e grunhidos permeassem todo o local, desafiando ouvidos numa sinestesia por si só lisérgica. Arrepios.

Ummagumma3

A qualidade do Ummagumma e sua longevidade de reconhecimento e público passam por dois fatores. Primeiramente o comprometimento da equipe liderada por Bruno Morais, trocando o ego (muito presente em formações do gênero) por profissionalismo e perfeccionismo ao extremo. O outro fator é a própria música do Pink Floyd, cuja interpretação por terceiros vai além do “cover” – vale dizer mais uma vez. Da pegada feroz de “Dogs” à transcendência de “Us and Them”, o som floydiano se mostra imersivo, religioso – interpreta-lo e ouvi-lo é uma forma de devoção e oração atemporais, seja no palco ou na plateia.

Só que, novamente, pegar bandas competentes e jogar na panela e ligar o fogo não faz um festival. O conceito e a produção invisíveis é que dão o tempero certo. Difícil pontuar algo que tenha dado errado ou desagradado. Para o público parecíamos estar diante de um parque de diversões de rock, tudo na medida e à disposição pra saciar os desejos. Numa época em que festivais viraram sinônimo de sacrifício, filas intermináveis e preços exorbitantes, o Ummagumma Classic Rock Festival foi o paraíso – local de fácil acesso, serviço de estacionamento, preços justos de comes e bebes de qualidade. E o lugar? Mais adequado impossível. Compacto, tudo num local só e bem distribuído para o ótimo público presente. Em shows rigorosamente pontuais, ao sair do mergulho musical do Compasso Lunnar no imponente palco principal já tinha início um rock de responsa no palco secundário (mas não menos cativante). Saía-se da catarse do Ummagumma e, antes de respirar e pegar outra cerveja, o Sissibonaflá já atacava de Beatles a poucos passos dali. E há que se destacar que todo esse ambiente mágico sob medida – com iluminação especial, porcos voadores e personagens do The Wall dentre as árvores – é simplesmente o quintal da casa da família anfitriã – o Verdes Eventos. Impossível o rock se sentir mais em casa.

Compasso Lunnar

Fredera

Cabe aqui um parênteses. Nos últimos tempos percebe-se um certo pudor da boa música de se profissionalizar, de arriscar a ser um produto de qualidade (natural pela exclusão midiática e dificuldade enfrentada por artistas e instrumentistas). No entanto isso acaba por legar as realizações de qualidade de produção unicamente ao hoje dominante mercado sertanejo ou a festivais de tal proporção que esvaziam a comunhão intrínseca a música. Se rock e MPB, que já dialogaram com as massas hoje é algo alternativo, mais do que nunca é preciso fortalecer esses nichos com profissionalismo – psicodelia e música marginal não precisa ser sinônimo de amadorismo pra ser verdadeira. E a primeira edição deste festival provou exatamente isso, numa cadeia produtiva em que boa música também aquece a economia local, transporte de vãs entre cidades vizinhas, hotéis, bares, comércio.

Mas há uma outra economia social difícil de se mensurar, e talvez a mais valiosa, gerada nestes dois dias. Refiro-me ao brilho nos olhos, sorrisos, abraços, planos e viagens entre amigos pelas rodovias e estradas de terra na companhia da Serra de Três Pontas, aos encontros entre familiares e à surpresa de rever pessoas queridas que a maré da vida vai nos distanciando e que de repente uma boa onda coloca lado a lado novamente, à confraternização entre iguais e diferentes onde tanto um senhor de mais de 70 anos de camisa preta quanto um jovem descobrindo o rock se sentem igualmente bem acolhidos. Essa é a verdadeira economia a ser fomentada. Exatamente nos dias em que nos despedimos da presença física de Belchior (não de sua música e seu legado eternos), estrada de terra a dentro, o pensando já faz planos para o próximo Ummagumma Classic Rock Festival. Não nos esqueçamos, “a felicidade é uma arma quente…”

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