“Feira Moderna – um Woodstock Mineiro” promove shows de Lô Borges, Beto Guedes, Wagner Tiso, Francis Hime e Azymuth dia 12 agosto em fazenda histórica de Três Pontas

Festival, que acontecerá na Fazenda Pedra Negra, a céu aberto, homenageia os 40 anos do lendário show do Paraíso; dentre as atrações ainda estão Nelson Ângelo, Daniel Gonzaga, Marginália, Quarteto Sentinela, Compasso Lunnar e o guitarrista Frederah

Banner_final_Feira Moderna

No dia 12 de agosto (sábado), Três Pontas (MG) escreverá mais uma página de sua íntima relação com a música brasileira. A primeira edição do projeto “Feira Moderna” homenageará os 40 anos de realização do show do Paraíso, promovido por Milton Nascimento em 1977. A majestosa Fazenda Pedra Negra, patrimônio histórico da cidade, receberá em seus terreiros de café 12 horas de shows com apresentações de Lô Borges (relembrando o épico “Disco do Tênis”), Beto Guedes, Wagner Tiso, Francis Hime, Nelson Ângelo e o grupo instrumental Azymulth – nomes do Clube da Esquina e da rica cena do país da década de 1970 que estiveram naquele que ficou conhecido como o “Woodstock Mineiro”.

Homenageando uma das grandes vozes que estiveram no show do Paraíso e que já nos deixou, Gonzaguinha, o Feira Moderna também contará com show de seu filho, Daniel Gonzaga. E o palco do festival ainda receberá performances dos grupos trespontanos Marginália e Compasso Lunnar – este recebendo a participação especial do lendário guitarrista Frederah, que também esteve no encontro de 1977 na mesma cidade. O encerramento do festival será com a banda Quartetto Sentinela, de Alfenas, que faz uma celebração do cancioneiro do Clube da Esquina.

Ao celebrar o passado e valorizar o presente da rica música brasileira, uma nova história surge com o Feira Moderna sob os trilhos do imaginário artístico pavimentado em Três Pontas, celeiro de amizades, da criação artística e da cultura mineira.

O festival contará com estrutura para atender um público de até 3 mil pessoas, incluindo festival de Food Trucks, banheiros, duas áreas de pista e camarotes – este com open food, open bar. O evento estimula o uso de transporte coletivo: vans sairão de Três Pontas e Varginha a cada meia hora, além do aeroporto de Três Pontas, próximo à fazenda, onde é possível deixar os veículos em estacionamento. O hotel-fazenda, que não fará reservas durante o evento, contará com área de camping.

Ingresso Solidário em prol da Santa Casa de Três Pontas

Além da promoção da cultura, o festival também busca chamar a atenção para a situação crítica vivenciada pela Santa Casa de Três Pontas. Nesse sentido, R$ 5 de cada ingresso solidário vendido serão repassados ao hospital, além do quilo de alimento exigido ao se adquirir tal entrada com valor especial (R$ 105).

A Santa Casa de Três Pontas tem 80 anos de história e serviços prestados à população. Atualmente é referência para cinco municípios e possui parceria com outras 18 cidades da região. No entanto, a situação financeira tem colocado em risco todo o funcionamento da estrutura, segundo Michel Renan Simão Castro, provedor da instituição. “O Estado nos deve 1,8 milhões de reais, estamos feridos de morte, uma situação sem precedentes. Quando assumimos, em março deste ano, o intuito foi o de não deixar o hospital fechar, estava faltando de tudo”, conta o provedor.

Ainda que o repasse represente uma parcela pequena frente ao imenso déficit da instituição, o apoio do festival caminha no sentido de dar visibilidade a tal situação junto à população da região, artistas de todo o país e autoridades. “Toda ajuda é bem-vinda. E é uma via de mão dupla ao agregar a possibilidade das pessoas virem ao festival através do ingresso solidário dando visibilidade a essa questão social urgente”, afirma o provedor da Santa Casa de Três Pontas.

Festival do Paraíso – 1977

Em 30 de julho de 1977, a trajetória de Milton Nascimento foi reconhecida em Três Pontas com a instituição do nome “Travessia” para a praça localizada em frente à casa de seus pais. A homenagem acabou por motivá-lo a convidar grandes artistas e amigos com quem mantinha convívio intenso à época para uma retribuição com um show especial em sua terra. Foi assim que desembarcaram na cidade nomes como Chico Buarque, Fafá de Belém, Simone, Gonzaguinha, Clementina de Jesus, o grupo chileno Água, Francis Hime e integrantes do já consagrado Clube da Esquina, como Beto Guedes, Lô Borges, o trespontano Wagner Tiso e Nelson Ângelo, dentre outros. Os dois dias de shows, que aconteceram num imenso descampado da fazenda Paraíso (terreno hoje utilizado para plantação de café), atraíram uma multidão de jovens que chegavam de toda a região e mesmo de estados como Rio de Janeiro e Bahia. Realizado em plena ditadura militar, com a presença de astros da MPB com forte engajamento político e um público que respirava novos comportamentos e ideais, o show ficou lembrado como o “woodstock mineiro” – em alusão ao lendário festival que ocorrera oito anos antes, em 1969, na cidade americana de Bethel, no estado de Nova York. A improvisação na produção do festival – patrocínio de um alambique local, pão com mortadela distribuído pela cidade para suprimir o esgotamento de alimentos, carros enguiçados pelas estradas de terra – passou a ser uma lembrança saudosa de um evento histórico, que tinha como elemento principal a amizade entre os artistas e a paixão do público por uma música que espelhava os dilemas e sonhos de uma geração.

Feira Moderna

O projeto, idealizado pela Gesto Produtora, apresenta-se como um festival itinerante. A cada ano uma cidade, de diferentes estados, será escolhida para receber apresentações musicais com homenagens a shows e eventos históricos que tenham ocorrido em tal localidade, a exemplo do “Woodstock mineiro” de 1977 em Três Pontas.

Fazenda Pedra Negra

Localizada a 7km de Três Pontas e a 17 km de Varginha, a Pedra Negra é um dos mais belos exemplares da arquitetura colonial na região, totalmente preservada e com estrutura de hospedagem, além de ser sede do Museu do Café. Os shows do Feira Moderna ocorrerão em alguns dos seis terreiros de café da fazenda, que é Patrimônio Histórico de Três Pontas.

Serviço

Feira Moderna – Um Woodstock Mineiro

Atrações: Lô Borges, Beto Guedes, Francis Hime, Azymuth, Nelson Ângelo, Wagner Tiso, Compasso Lunnar e Fredera, Daniel Gonzaga e Marginália.

Quando: 12 de agosto (sábado)  *Abertura dos portões às 12h. Início dos shows às 14h. Fechamento dos portões às 02h da manhã.

Onde: Fazenda Pedra Negra – Três Pontas. *estrada para Varginha (7 km de Três Pontas e 17 km de Varginha).

Quanto:

Camarote – 1° Lote: R$ 300 (valor único)

Pista – R$ 200 (inteira) e R$ 100 (meia)

Pista – Solidário: R$ 105 + 1kg de alimento não perecível

Vendas online: http://www.ipass.com.br <link direto>

* taxa de conveniência do site: 10%. Opção de pagamento com boleto ou cartão

Vendas em lojas:

<a partir de 14 de julho, sexta>

Três Pontas: Pizza Dog, Specialle, Vimi Café Gourmet

Varginha: Pré-festa (rua Dona Zica, 46-A, Vila Pinto)

Alfenas: Bar Januário (Rua Tiradentes – Centro) e Love Brands (próximo à Praça Getúlio Vargas)

Classificação indicativa: 18 anos (menores apenas acompanhados de responsáveis)

Capacidade: 3 mil pessoas

Estacionamento: localizado a 800 metros do evento, o estacionamento oficial é sob responsabilidade da APAE de Três Pontas. Valor: R$ 20 (incluído transfer para o evento)

Camping: Mais informações com Gustavo – (35) 3265 1447. Área na própria fazenda. Serviço pago.

Mais informações:

http://festivalfeiramoderna.com.br

(35) 9.8705.7953 | (35) 9.9974-0724 |contato@festivalfeiramoderna.com.br

Redes sociais:

Facebook: http://www.facebook.com/feiramodernafestival/

Instagram: http://www.instagram.com/feiramodernafestival/?hl=pt-br

Outras informações:

  • proibida entrada com bebidas, alimentos e objetos cortantes.
  • hospedagem na Fazenda Pedra Negra não disponível durante o evento

 

——————————————————————

Assessoria de Imprensa

João Marcos Veiga

(31) 9.8788-4534 | joaomarcosveiga@gmail.com |

——————————————————————-

Sobre os artistas convidados e shows

Lô Borges

No ano de 1972, Lô Borges lançou dois LPs emblemáticos e decisivos na história da discografia brasileira: ao lado de Milton Nascimento, o “Clube da Esquina”; e o outro álbum, com apenas o nome do artista e um par de tênis surrados na imagem de capa, que ficou mais conhecido como o “Disco do Tênis”.  No show, o artista e sua banda reconstroem na íntegra o álbum ao vivo. O disco é considerado um dos grandes clássicos da MPB. A apresentação terá também músicas de Lô gravadas no “Clube da Esquina”, clássicos como “Um Girassol da Cor do Seu Cabelo”, “O Trem Azul” e “Paisagem da Janela”, com arranjos das gravações originais.

Wagner Tiso

Natural de Três Pontas, com consagrada carreira no país e exterior como pianista, compositor e arranjador, Wagner Tiso é fundador do lendário grupo Som Imaginário, peça chave do Clube da Esquina e principal parceiro de Milton Nascimento desde a infância. De trilhas para cinema a arranjos e direção musical, esteve ao longo de sua trajetória musical lado a lado com nomes como Paulo Moura, Cauby Peixoto, Ron Carter, Gilberto Gil, Hermeto Pascoal, Chico Buarque e Ivan Lins, dentre tantos outros.

Francis Hime

Pianista, compositor e arranjador, o carioca Francis Hime assumiu o papel de um dos principais protagonistas da música popular brasileira a partir da primeira metade dos anos 60, além de forte relação com o meio erudito e trabalhos com orquestras. Em 1963, começa a sua parceria com Vinicius de Moraes, com quem compôs inúmeras canções, tais como “Sem mais adeus” e “Anoiteceu”. Nessa época começa também a compor com Ruy Guerra canções como “Minha” (gravada por Tony Bennett, Bill Evans e muitos outros). Participou de vários festivais de música nos anos 60, quando suas canções foram cantadas por Elis Regina, Roberto Carlos, Jair Rodrigues, MPB-4 e outros. Em 1969 foi para os Estados Unidos, onde ficou quatro anos estudando composição, orquestração e trilhas. De volta ao Rio, em 1973, grava seu primeiro disco para a Odeon, quando também começa a compor com Chico Buarque, rendendo parcerias como “Atrás da porta”, “Trocando em miúdos”, “Meu caro amigo”, “Pivete”, “Passaredo”, “A noiva da cidade” e “Vai Passar”. Em 1973, começa a compor trilhas para filmes, tais como: “Dona Flor e seus maridos” e “A noiva da cidade”. Em 2015, lançou pela gravadora Biscoito Fino o CD e DVD “Francis Hime 50 Anos de Música”, e atualmente está escrevendo um concerto em três movimentos para clarinete e orquestra.

Beto Guedes

Multiinstrumentista natural de Montes Claros, Beto Guedes é um dos nomes centrais do Clube da Esquina, tendo absorvido em suas obras tanto a influência do rock progressivo quanto do rico cancioneiro regional que pavimentou sua carreira. No show estarão temas como “Amor de Índio”, “O Sal da Terra”, “Feira Moderna” e “Maria Solidária”, dentre outros, com banda composta pelos músicos Arthur Rezende (bateria), Adriano Campagnani (baixo), seu filho Ian Guedes (guitarra) e Cláudio Faria (teclados).

Daniel Gonzaga

Filho de Gonzaguinha e neto de Gonzagão, percebe-se rapidamente a boa influência da família no trabalho de Daniel Gonzaga. Com personalidade própria, é possível comparar suas letras ácidas e bem construídas às do pai. Na parte musical, Daniel herda o ritmo inconfundível do Rei do Baião e cria fusões enriquecedoras para a MPB, igualmente tendo a poesia como grande destaque. O carioca gravou aos 21 anos seu primeiro disco, “Sob o Sol”. Desde então, álbuns autorais e a composição de trilhas sonoras têm sido a vida do artista. Prepara o lançamento de seu primeiro DVD, já gravado, com participações especiais do grupo Chicas, de sua irmã Fernanda Gonzaga e de Paulinho da Viola.

Azymuth

Com mais de 45 anos de carreira e mais de 30 álbuns gravados, o grupo já esteve nos principais festivais e casas de música de todos os continentes, como o Montreaux Jazz Festival e o Blue Note de Nova York. Surgido no diálogo entre bossa nova e jazz (com formação original de José Roberto Bertrami, Alex Malheiros e Ivan Conti), é uma das bandas mais prestigiadas do Brasil no exterior, tendo trabalhos ao lado de Eumir Deodato, Stevie Wonder, Sarah Vaugham, Joe Pass, Milton Nascimento, Elis Regina, Tim Maia, dentre outros. Em 2015 o Azymuth convidou o pianista Kiko Continentino para ocupar a vaga deixada por Bertrami e continuar a manter o som e a chama acesa.

Nelson Ângelo

Ainda  em  Belo  Horizonte conheceu  Milton  Nascimento, Márcio  e  Marilton  Borges,  Fernando  Brant,  Toninho  Horta e Helvius   Vilela.   Iniciou   sua   carreira em casas noturnas, teatros e televisão, tornando-se músico profissional em 1966. No  final  do  mesmo  ano  mudou-se  para  o  Rio  de  Janeiro  onde  conheceu Dorival   Caymmi,   Tom   Jobim,   Vinícius   de   Moraes,   Luiz   Eça,   Edu Lobo,   Marcos   e   Paulo   Sérgio   Valle,   Rui   Guerra   e   Ronaldo   Bastos. Gravou  com  artistas  brasileiros  e estrangeiros como Sarah Vaughan, Björk, Telly  Savalas,  Egberto  Gismonti,  Gonzalo  Rubalcaba  e  John  McLaugh. Participou   do   Clube   da   Esquina,   Quarteto   Livre,   Clube   do   Samba, Conjunto Luiz Eça e a Sagrada Família, A Tribo e Turma do Funil. Atuou como  músico,  compositor,  cantor,  arranjador  e  produtor,  afirmando-se como artista independente no Brasil, América Latina e países europeus. É autor de temas como “Canoa, Canoa” e “Testamento”.

Compasso Lunar e Frederah

Formado por Clayton Prósperi (teclados), Fernando Marchetti (bateria), Ismael Tiso (guitarra) e Paulo Francisco Tutuca (baixo), o grupo de Três Pontas mostra uma nova música autoral do sul de Minas com influências do rock ao jazz, com forte relação com o Clube da Esquina e com a obra de Milton Nascimento – os integrantes fizeram parte da turnê do álbum “E a gente sonhando”, como solistas e compositores. A estreia do grupo se deu em 2016 no Sesc Palladium em Belo Horizonte, marcando também o lançamento do clipe “Molhou/Lampejo”, gravado na Fazenda Pedra Negra. Este é exatamente o cenário do festival Feira Moderna, no qual se apresentarão ao lado de Frederah, lendário guitarrista do Som Imaginário, autor do celebrado disco instrumental “Aurora Vermelha” e instrumentista de nomes como Ivan Lins, Gonzaguinha e Gal Costa.

Marginália

Banda claramente influenciada pelo tropicalismo, traz para o palco todo o rock brazuca de ontem e hoje, o groove e o swing do lado A e B da MPB além de belas composições autorais. A banda de 11 integrantes é de Três Pontas, Sul de Minas, cidade conhecida por sua fértil produção musical, e tem a proposta de fazer música brasileira, cover ou autoral, inspirada na energia tropicalista de misturar o rock com o swing brasileiro.

Quartetto Sentinela

Banda de Alfenas com mais de uma década de estrada, o Quartetto faz em seus shows uma celebração do cancioneiro do Clube da Esquina e de Milton Nascimento, já tendo realizado apresentações ao lado de nomes como Tavito, Toninho Horta e Flávio Henrique em teatros e casas noturnas do país. O grupo é formado atualmente por Paulo Francisco Tutuca (vocal), Luiz Cláudio Casquídeo (violões e baixo), Gabriel Gomes (bateria) e Eric Furlan (guitarra).

 

 

 

 

 

 

 

Anúncios

Ummagumma Classic Rock Festival e a economia da comunhão em Três Pontas

Três Pontas recebeu no último fim de semana (29 e 30 de abril) o Ummagumma Classic Rock Festival, tendo como anfitrião o grupo local que arrasta multidões de exigentes fãs de Pink Floyd há mais de uma década Brasil a fora. Reunir bandas covers e outras de pegada mais autoral num evento fechado, pago, aparentemente não traz grandes novidades. Mas é no detalhe que mora o diabo, deuses e orixás que só dão as caras numa conjugação de fatores nada casuais, como nesses dois dias mágicos que geraram momentos únicos pra quem os desfrutou.

A cidade berço de Milton Nascimento por si só já carrega uma aura atrativa, mexe com o imaginário, fascina o olhar de quem circula por charmosas ruas, praças e se depara com sua igreja majestosa. Porém isso não basta, mas também está no caldo que deu chão a uma geração contemporânea de talentosos e competentes músicos da cidade e região. A seleção de grupos que se apresentou no festival espelha exatamente isso, em formações que transcendem a desgastada palavra “cover”.

Ummagumma

Da irreverência, repertório catártico e presença de palco forte e política da Marginália, encabeçado por Isabela Morais, passando pela maestria sonora do Compasso Lunnar – com releituras e autorais lisérgicas num rico diálogo com o Clube da Esquina, rock e jazz presenteadas pela guitarra do mago Fredera – até tributos de Stones e Doors à altura do desafio de se recriar sonoridades tão únicas. Quem viu sabe que isso foi alcançado. Já para o Ummagumma o momento teve caráter ainda mais especial, por ter sido o primeiro show do grupo em sua terra natal na dimensão que plateias de Belo Horizonte, Rio de Janeiro e outros pontos já estão acostumados, além de ter sido ali a estreia da turnê “You Gotta Be Grazy”. A paisagem sonora proporcionada diante de um som 5.1 (acima do quadrofônico), num ambiente a céu aberto levou o público de milhares de pessoas a uma experiência auditiva incrível, sobretudo pela releitura do lendário álbum “Animals”, fazendo com que urros, falas, ganidos e grunhidos permeassem todo o local, desafiando ouvidos numa sinestesia por si só lisérgica. Arrepios.

Ummagumma3

A qualidade do Ummagumma e sua longevidade de reconhecimento e público passam por dois fatores. Primeiramente o comprometimento da equipe liderada por Bruno Morais, trocando o ego (muito presente em formações do gênero) por profissionalismo e perfeccionismo ao extremo. O outro fator é a própria música do Pink Floyd, cuja interpretação por terceiros vai além do “cover” – vale dizer mais uma vez. Da pegada feroz de “Dogs” à transcendência de “Us and Them”, o som floydiano se mostra imersivo, religioso – interpreta-lo e ouvi-lo é uma forma de devoção e oração atemporais, seja no palco ou na plateia.

Só que, novamente, pegar bandas competentes e jogar na panela e ligar o fogo não faz um festival. O conceito e a produção invisíveis é que dão o tempero certo. Difícil pontuar algo que tenha dado errado ou desagradado. Para o público parecíamos estar diante de um parque de diversões de rock, tudo na medida e à disposição pra saciar os desejos. Numa época em que festivais viraram sinônimo de sacrifício, filas intermináveis e preços exorbitantes, o Ummagumma Classic Rock Festival foi o paraíso – local de fácil acesso, serviço de estacionamento, preços justos de comes e bebes de qualidade. E o lugar? Mais adequado impossível. Compacto, tudo num local só e bem distribuído para o ótimo público presente. Em shows rigorosamente pontuais, ao sair do mergulho musical do Compasso Lunnar no imponente palco principal já tinha início um rock de responsa no palco secundário (mas não menos cativante). Saía-se da catarse do Ummagumma e, antes de respirar e pegar outra cerveja, o Sissibonaflá já atacava de Beatles a poucos passos dali. E há que se destacar que todo esse ambiente mágico sob medida – com iluminação especial, porcos voadores e personagens do The Wall dentre as árvores – é simplesmente o quintal da casa da família anfitriã – o Verdes Eventos. Impossível o rock se sentir mais em casa.

Compasso Lunnar

Fredera

Cabe aqui um parênteses. Nos últimos tempos percebe-se um certo pudor da boa música de se profissionalizar, de arriscar a ser um produto de qualidade (natural pela exclusão midiática e dificuldade enfrentada por artistas e instrumentistas). No entanto isso acaba por legar as realizações de qualidade de produção unicamente ao hoje dominante mercado sertanejo ou a festivais de tal proporção que esvaziam a comunhão intrínseca a música. Se rock e MPB, que já dialogaram com as massas hoje é algo alternativo, mais do que nunca é preciso fortalecer esses nichos com profissionalismo – psicodelia e música marginal não precisa ser sinônimo de amadorismo pra ser verdadeira. E a primeira edição deste festival provou exatamente isso, numa cadeia produtiva em que boa música também aquece a economia local, transporte de vãs entre cidades vizinhas, hotéis, bares, comércio.

Mas há uma outra economia social difícil de se mensurar, e talvez a mais valiosa, gerada nestes dois dias. Refiro-me ao brilho nos olhos, sorrisos, abraços, planos e viagens entre amigos pelas rodovias e estradas de terra na companhia da Serra de Três Pontas, aos encontros entre familiares e à surpresa de rever pessoas queridas que a maré da vida vai nos distanciando e que de repente uma boa onda coloca lado a lado novamente, à confraternização entre iguais e diferentes onde tanto um senhor de mais de 70 anos de camisa preta quanto um jovem descobrindo o rock se sentem igualmente bem acolhidos. Essa é a verdadeira economia a ser fomentada. Exatamente nos dias em que nos despedimos da presença física de Belchior (não de sua música e seu legado eternos), estrada de terra a dentro, o pensando já faz planos para o próximo Ummagumma Classic Rock Festival. Não nos esqueçamos, “a felicidade é uma arma quente…”

20170501_165249

20170501_143922

 

Dia desses sonhei Tom Jobim

Texto escrito especialmente para o blog Massa Crítica, do historiador e pesquisador Luiz Henrique Assis Garcia.

Dia desses sonhei Tom Jobim. Antes dele, porém, me veio um cheiro de terra molhada em fim de tarde de março, com o calor logo a misturar as estações. Estava eu não sei em que espaço, num tempo suspenso e inebriante, mas igualmente premonitório de algo grandioso que me rondava, como se estivesse dentro da introdução de “O Boto”. Em meio a sons e gostos que ainda não distinguia, eis que o vi ao longe, sozinho numa trilha, camisa aberta, uma mão a segurar o chapéu e a outra a apontar, com olhar atento, o remexer das folhas na copa de uma figueira. É o vento ventando, é uma ave no céu. Talvez jereba imitando o vento, expandindo suas asas soberanas. Tom sorriu. No turbilhão próprio dos sonhos, logo fui tragado pelo desfilar de cenas indistintas. Tomando assento lentamente, passei a distinguir as cores do cenário no qual eu me corporificava, pouco coerentes com a primeiro. Estava eu numa festa, à beira de uma piscina e também de um imenso rio. Pessoas dançavam alegremente, com ares de ritual indígena, ao som de um carimbó. Aromas inebriavam aquele ambiente insólito. Em estado de vertigem, atento que ao meu lado agora está Tom Jobim, confortavelmente segurando uma caipirinha de carambola. “O Brasil é uma coisa né, meu jovem”, disse soltando  uma jocosa gargalhada.

Tom Jobim, em sua casa.

Dando por mim em tal situação, tinha eu pressa de não perder aquela oportunidade de conversa ribeira com Antonio Carlos Jobim. “E a bossa nova, a música brasileira, onde foram parar?” Mas o maestro não parecia interessado naquele assunto. Queria saber da pimenta-de-cheiro que salpicava seu olfato, dos vestidos que cintilavam naquela dança. Mas sobretudo se divertia em identificar sabiás, rolinhas, bem-ti-vis e toda a natureza que resplandecia em nosso entorno. Eis que, me passando a caipirinha de carambola, parecia cansado, nostálgico, como se quisesse talvez descansar à sombra de uma palmeira que já não há. Where is te paradise i’ve made for you. Where is te greeen? And where is the blue? “O Brasil é um caso sério, meu rapaz”, disse ele voltando a sorrir, apertando os lábios para melhor sentir o gosto da cachaça que sorvia. Quando já bolava eu assuntos e questões para dar prosseguimento àquele rumo de nossa prosa, eis que me encontro novamente sozinho naquela Terra Brasilis, com o sol a desmaiar ao longe. O sonho é o mistério profundo. É o queira ou não queira.

Revendo a sensibilidade de “O Palhaço”

Interessado por uma homenagem à filmografia de Paulo José no Canal Brasil, revi “O Palhaço”. Lembro do trabalho ter me cativado logo que assisti à estreia no cinema. Mas agora, de forma mais distanciada, pude sacar o grande filme que Selton Mello construiu – pra mim, um dos melhores nacionais dessa década. Apesar das claras referências a longas do gênero, como “La Strada”, de Fellini, é um olhar original e de grande beleza de fotografia, com luz quase sempre natural, naqueles momentos mágicos do amanhecer e entardecer. Assim como em “O Cheiro do Ralo”, cada cena parece ser um sketch, com roteiro, humor e cenário próprios, quase isolados (prisão e discurso do delegado, conversa com prostituta, mecânico). O nonsense sempre dá as caras, como nas viagens em torno do desejo do personagem central ter um ventilador.

O Palhaço

Mas além das paisagens e sotaque saborosamente sulmineiros, o que realmente me cativou foi a proposta de fé no sentimento e humor simples, puro, com cenas de forte impacto visual a serviço de um afeto que chega a dar nó na garganta – o cinema brasileiro é bom nisso, mas geralmente a serviço de revelar os desencontros. Num desfile de atores de alto calibre em personagens cuidadosamente tecidos para evocar o humor preciso que já irradia de suas personalidades – Telda Bara, Tonico Ferreira, Moacir Franco -, considero marcante o momento em que o personagem redescobre que sua vida tem como alimento a risada alheia logo num momento banal, em que “Zé Bonitinho” conta piadas simples num jantar, mas despertando riso frouxo nos presentes, e quando, na carroceria de um caminhão, faz graça para uma retirante e resgata seu tino. Na cena final, aparece o gênio do diretor no travelling em que a menina, após sua estreia no circo, percorre esse espaço de afeto, dor e magia, revelando a alma de cada um que o constrói.

Com propósito de preservação e difusão cultural, acervo de discos de vinil em Alfenas possui cerca de 6 mil unidades

Reportagem e imagens: João Marcos Veiga

Reportagem publicada no jornal Correio Trespontano

Num primeiro momento, temos poucos sinais do que nos espera ao descer um lance de escadas de uma casa situada no Aeroporto, pacato bairro residencial na cidade de Alfenas. Mas é ali no porão da residência – em frente a um bem cuidado pomar perfumado por limoeiros, mamoeiros, acerolas e pitaias – que nos deparamos com um dos maiores acervos de discos do sul de Minas, com mais de 6 mil exemplares.

Acervo_Marco Valério.JPG

No espaço de cerca de 60 metros quadrados está representada boa parte da produção fonográfica nacional e internacional do século 20. Elvis Presley, Chico Buarque, Janis Joplin, Odair José, Michael Jackson – ao percorrer com os olhos as quatro paredes tomadas por capas, entra-se em vertigem de referências dos mais variados estilos. O acervo pertence a Marco Valério Tiso Veiga (54), farmacêutico e funcionário do Fórum Trabalhista da cidade.

A coleção teve início de forma despretensiosa. Da adolescência já trazia os discos de rock progressivo; aos poucos foi ficando com os LPs de irmãos e amigos, numa época em que se dava pouco valor aos bolachões, deixados de lado (ou até na lata de lixo) em preferênciaaos emergentes CD e MP3 nas décadas de 1990 e 2000. De família de músicos, não era difícil reunir pequenos acervos de qualidade dispersos entre pessoas próximas – Marco confere espaço de destaque ali a todos os trabalhos do irmão Wagner Tiso, em sua maioria com dedicatórias aos pais e sobrinhos.

Mas a proposta tomou realmente outra dimensão com as primeiras doações em maior volume. “A primeira alavancada veio com o tio Paulinho”, conta sobre o tio de sua esposa, que se desprendeu de 200 discos. Na festa de aniversário de 50 anos, Marco pediu de presente discos de vinil. Um amigo de juventude, Keninho, de Carmo da Cachoeira, foi além – passou de uma vez só 80 unidades do fino da música brasileira. “Depois vieram outras, como do Brexó, de Três Pontas, e de pessoas que ficavam sabendo que eu estava colecionando. Discos de gente que tinha morrido e a família queria se desfazer. Até que veio a do Bituca”, relembra Marco Valério, sobre os mil vinis que ganhou de seu padrinho Milton Nascimento.

A aquisição do acervo ilustre (parte do que dispõe o cantor residente no Rio de Janeiro) trouxe discos de claro valor simbólico, uma vez que vários dos materiais guardam dedicatórias de jovens que se iniciavam à época no mundo musical (como o uruguaio Jorge Drexler) e de amigos artistas, como Tavinho Moura, Nivaldo Ornelas, Marcus Vianna, Juarez Moreira, dentre outros, revelando admiração mútua intimidade entre parceiros. Algumas mostram-se raras, como um disco dado pelo lendário baterista Dom Um Romão a Milton – a assinatura é de 1974, em Nova York, mesmo ano do lançamento do trabalho em solo americano. Outras capas trazem apenas uma assinatura de Milton, para atestar que faziam parte de sua eclética coleção, a exemplo de um disco de Wanderléa de 1977.

Ocupando cinco prateleiras, não é difícil perceber que o maior destaque ali é dado à discografia de Milton Nascimento, posicionada em ordem cronológica a partir do álbum lançado em 1967 que leva o nome do artista, além de edições especiais, como a reunião numa mesma edição de “Minas” (1975) e “Geraes” (1976). O acervo alfenense ainda traz outras discografias completas, como dos grupos Pink Floyd, Gênesis e Som Imaginário.

Apesar de alocar LPs especiais e muitas vezes raros de alto valor no mercado informal (Beatles, Mutantes, Secos e Molhados, Janis Joplin, Tropicália, “disco do Tênis” de Lô Borges), o acervo alfenense não tem restrição de gênero. “A coleção tem de tudo. Estilo tem qualquer um, carnaval, clássico, gospel, novela”, informa Marco. Assim, separados por poucos centímetros podem estar Xuxa e Hermeto Pascoal, Bee Gees e Mozart. Mesmo com tal diversidade e quantidade, o acervo tem organização criteriosa, disposta em gêneros e com preocupação na disposição visual, limpeza e arejamento, inclusive com produtos que controlam a humidade no ambiente.

Marco Valério passa diariamente ao menos duas horas dedicadas exclusivamente ao acervo. Cada LP que adquire passa por um processo que inclui a lavagem do disco (com secagem ambiente), limpeza, troca de plástico, avaliação da capa – algumas são refeitas e inserção numa tabela digital que distingue informações diversas, como doador. “A ideia não é só colecionar, mas também recuperar discos, já que muitos chegam sem condições.” Num segundo momento, Marco ouve o álbum todo (a sua disposição estão quatro pick-ups, dois amplificadores e quatro caixas de som de alta qualidade), incluindo a marcação à caneta da faixa que mais gostou. O empenho e entusiasmo com tal ritual são bem conhecidos do que acompanham a saga do alfenense.

Apesar da dedicação ao acervo, Marco Valério não estabelece um sistema formal de aquisição, troca e venda. Tudo é avaliado ocasião a ocasião. Mesmo com um boom na procura por vinis, no interior ainda é barato adquiri-los, até por R$ 2. Em algumas poucas ocasiões opta por compras pela internet em busca de exemplares faltantes. “Já tenho quase tudo que queria. Agora tô comprando pouco”, conta. Já as trocas e vendas ocorrem informalmente e em eventos específicos na cidade, como o Encontro dos Músicos de Alfenas e região. Mas tem um detalhe – só entram em negociação os vinis repetidos. E os mais especiais para o colecionador (como os de Milton Nascimento), só são passados pra frente caso ele tenha outros dois muito bem guardados no porão musical.

Com a expansão dos cursos da Unifal, observou-se uma maior busca por LPs na cidade, com algumas trocaspor iniciativas de bares, como o Januário. No entanto enfraqueceram-se outros espaços de socialização para esse propósito, como a que ocorria aos domingos na feira antes do vendedor Sinval não mais cruzar a estrada de Boa Esperança à procura sobretudo de discos sertanejos – o que permitia a Marco frutíferas trocas por almejados exemplares de MPB e rock.

Apesar do acervo ser particular e não estar aberto regularmente, Marco Valério recebe pessoas interessadas em conhecer, adquirir e trocar vinis. Mas o intuito é ir além do aspecto mercantil, tornando o espaço um ponto de vivência cultural. Para 2017 ele planeja realizar no próprio local pequenos seminários e debates sobre gêneros e artistas, ministrados por músicos e professores residentes na cidade e regados a vinho – naturalmente com os conhecimentos repassados sendo exemplificados com discos do acervo e com o canto dos pássaros do quintal só sendo interrompidos pelo delicioso chiado do bom e velho disco de vinil.

 

INSTRUMENTAL, A NOVA VOZ DA MÚSICA MINEIRA

fotos de Élcio Paraíso

 

foto: Élcio Paraíso

Festivais e prêmios têm, na grande maioria das vezes, a marca negativa de acirrar desnecessariamente o espírito competitivo entre os concorrentes e deixar um ar de injustiça quanto ao resultado final. Mas não foi isso o que se viu nas noites de 30 e 31 de março e primeiro de abril no Teatro Sesiminas em Belo Horizonte. O XII Prêmio BDMG Instrumental levou 12 grandes artistas ao palco – exatamente na edição realizada no ano de 2012 – e mostrou uma diversidade enorme de propostas musicais com altíssimo nível de execução.

Assim como o jazz, a música instrumental não tem modelos ou regras, apenas referências que se abrem a um universo infinito de possibilidades harmônicas e rítmicas. Cada um dos concorrentes mostrou um pouco dessas nuances, seja evocando baião, samba, experimentalismos ou mesmo o jazz – as influências evocadas e anunciadas iam de Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti a Chris Potter. E isso reflete exatamente uma geração especial da cena instrumental belorizontina, já que, apesar de variações estilísticas, muitos ali são amigos e compartilham formações na noite dos bares (grande escola para quase todos) e projetos artísticos. Isso foi visível não só para quem acompanha a cena mineira, bastando ter verificado que não foram raros os instrumentistas que acompanharam mais de um concorrente.

E exatamente pelo alto nível presenciado, excelentes candidatos ficaram pelo caminho, como o saxofonista Sérgio Danilo, que apresentou composições envolventes com influências declaradas de gafieira e fez uma homenagem a K-ximbinho, com “Ternurinha”, num lindo arranjo acompanhado pelo violão de sete cordas de Thiago Delegado (um dos vencedores da edição de 2011).

A grande final, que levou seis concorrentes da primeira noite e dois da segunda, mostrou uma constatação da música instrumental: não basta ser um virtuose (característica compartilhada por quase todos selecionados), há que se ter um diferencial. Nesse sentido, um dos pontos mais bacanas do Prêmio BDMG é a exigência de que dois dos três temas sejam composições próprias e o terceiro um arranjo. Com isso, descortinam-se criadores excepcionais. Outro ponto interessante é não ter um único vencedor, mas sim quatro, que além de R$9 mil, terão direito a um show em BH e outro em SP, através do Sesc TV, com convidados especiais. Mesmo os dois finalistas não premiados deixaram ótima impressão. Walmir Carvalho, ao saxofone, mostrou elegância e fez uma releitura do mestre Moacir Santos. Já o também saxofonista Bernardo Frabris, com grande domínio, passou de influências do Clube da Esquina e Jazz ao rock progressivo.

foto: Élcio Paraíso

Mas não dá pra questionar os méritos do quarteto vencedor. Gilson Brito foi o candidato com maior pontuação. Na saída do teatro, o juri (formado por feras como Teco Cardoso, do Quarteto Pau Brasil, e Mauro Rodrigues) ainda tentava digerir a técnica fabulosa do goiano (o edital do prêmio exige que o candidato seja residente em Minas), que aprontou as maiores estripulias ao violão sem transtejar uma nota sequer – um desafio enorme em performances complexas. Gilson, que levou para o palco um pouco de sua trajetória erudita, foi acompanhado pelo clarinete de Matteo Ricciardi, eleito como o melhor instrumentista da edição, destacando-se na interpretação de Beatriz (Chico Buarque e Edu Lobo), que arrancou lágrimas da platéia.

foto: Élcio Paraíso

Merecida também a escolha de Thiago Nunes. O guitarrista mineiro tira um som ao mesmo tempo discreto e arrojado de sua guitarra, no melhor estilo da escola de Toninho Horta. Não por acaso, na hora de fazer uma releitura, optou por “Francisca”, de Toninho.

Como compositor ele também passa com boa desenvoltura do universo de influências locais para o jazz – o instrumentista teve aulas em Nova York com dois ícones do gênero, Jack Wilkins e Lage Lund. Resultado disso foi uma apresentação agradabilíssima e de alto nível.

Élcio Paraíso

O maior premiado do XII BDMG Instrumental foi Rafael Martini (mais do que merecido, aos ouvidos do Notas Geraes). O pianista foi aquele que demonstrou maior inventividade nas composições, sem exibicionismos. A banda (piano, bateria, contrabaixo, clarinete, clarone e flautas) foi explorada num experimentalismo que conjugava raro calor e catarse de público. A proposta diferenciada para o grupo também foi reconhecida com o prêmio de melhor instrumentista acompanhante para o baterista Antônio Loureiro.

No último tema, uma síntese da dialética de Rafael: um magistral arranjo de “Tempo do Mar”, composição pouco conhecida de Tom Jobim que adentra profundezas onde só o maestro soberano poderia chegar. A releitura rendeu a Martini um segundo prêmio do júri, de melhor arranjo.

E para fechar o quarteto vencedor, Pablo Dias. Tanto no anúncio final quanto nas duas apresentações (seletiva e final), o jovem de 20 anos foi ovacionado pelo público – em parte por seu carisma no palco e pelas divertidíssimas entrevistas que concedeu no intervalo (salvando a proposta sonolenta de bate-papo com os concorrentes). Mas não há dúvidas, a revelação – no sentido mais verdadeiro – do festival é realmente um fenômeno. O talento nato do cavaquinista foi refinado tocando em bares com grupos de samba e chorinho na Praça Sete.

O domínio do instrumento é impressionante, lembrando Yamandu Costa e Hamilton de Holanda (o primeiro ele já acompanhou; e o segundo é seu ídolo, que ele pretende ter como convidado no show para o Sesc TV, “se o cachê der”). Mas o que ninguém esperava era presenciar duas composições instrumentais tão maduras e virtuosas. A escolha de “Passarim” para finalizar seu número também demonstrou sensibilidade de repertório.

Pablo se dizia maravilhado por poder estar em um mesmo festival que seus ídolos (ele é aluno de Thiago Nunes). E é exatamente ali que ele pretende ficar. Disse que uma hora gostaria de ser íntimo e poder chamar tantos feras pelo apelido, assim como os instrumentistas se relacionavam nos bastidores. E esse momento não demorou a chegar. Após a noite de premiação, muitos vencedores, acompanhados de amigos, e jurados seguiram para a tradicional Casa dos Contos. Em mesas lado a lado, em pouco tempo ele já tinha ganhado a admiração e amizade de Wagão e Juá. Wagão é Wagner Tiso, presidente do júri da edição do prêmio; e Juá é Juarez Moreira, que fez a seleção dos concorrentes iniciais do festival.

Com a noite conduzida pelo vinho, Juarez Moreira buscava contextualizar o atual estágio da música mineira para o crítico e poeta Antônio Carlos Miguel (também jurado do festival). “Esse pessoal é quem conseguiu realmente dar continuidade e reinventar a seu modo o legado de qualidade musical deixado pelo Clube da Esquina”, analisou o guitarrista, violonista e compositor. “E mesmo tendo focado nas canções, nós sempre tivemos a música instrumental ali dentro do Clube da Esquina”, lembrou o pianista e arranjador, fisgando os nomes de Nivaldo Ornelas e Hélvius Vilela para esse exemplo.

Todos os concorrentes se dizem muito confortáveis produzindo em Belo Horizonte – esse ano diversos álbuns serão lançados (como o de Rafael Martini), nos quais muitos deles se revezam como artista solo e acompanhante. E com um cenário como esse, é aqui que eles pretendem ficar. Pelo visto, depois de mais de 120 anos da capital mineira, parece ser a música instrumental a romper o legado (ou maldição) de vermos nossos maiores artistas obrigados a fazer carreira em outras freguesias (os exemplos vão dos modernistas, como Drummond, ao Clube da Esquina). E uma voz que se afirma com muito talento e personalidade.

Ícone do rock progressivo nacional, O Terço continua na ativa

publicado no jornal Estado de Minas em 16.03.12

A brincadeira parte do único remanescente da banda original – coincidentemente, o mais velho da turma. “Já estamos encomendando a banheira de formol e a câmara hiperbárica”, diz, com a indispensável ironia, Sérgio Hinds (guitarra, viola e vocal), de 63 anos. Ao lado de Sérgio Magrão (baixo e vocal), de 61, e Sérgio Mello (bateria e percussão), de 40, ele dá sustentação à reverenciada formação clássica de O Terço, liderada por Flávio Venturini (piano, teclados e vocal), de 62.

Na ativa desde 2005, quando voltaram aos palcos para gravar CD e DVD ao vivo, os integrantes da lenda viva do progressivo nacional assumem, sem medo, a posição de dinossauros do rock. No show deste sábadoà noite, no Grande Teatro do Palácio das Artes, não vão faltar hinos (Criaturas da noite, Hey amigo e Casa encantada), além de criações mais recentes (Suíte e Antes do sol chegar, entre outras). Adepto do gênero e líder do SagradoCoração da Terra, o violinista Marcos Vianna é o convidado da turma.
Ao mexer no baú, Flávio Venturini acabou encontrando canções inéditas em fitas de rolo que espera reaproveitar em novos discos. Entre elas está a ópera-rock Raposa azul, parceria dele com Hinds. A história do grupo é narrada em pequenas crônicas no inédito livro Eu e O Terço, de Irinéa Maria Ribeiro, viúva do baterista Luís Moreno: a banda que sempre privilegiou hard rock, folk e MPB aderiu ao progressivo exatamente depois da chegada de Venturini. Hoje, o mais fanático pelo gênero é Sérgio Mello, o integrante mais jovem da turma.
“Continuo com a carteira de sócio atleta da jurisdição pró-rock”, brinca o baterista, que ouve e pesquisa o progressivo no mundo inteiro, especialmente na Europa, onde o gênero se expande em grandes festivais promovidos na Alemanha e na Dinamarca. “Os maiores nomes são os que atualmente fazem grandes shows no Brasil”, afirma Mello. O progressivo, explica ele, nasceu com os Beatles, que juntaram rock’n’roll e música clássica sob a batuta do maestro George Martin.
Sgt. Pepper’s é um clássico”, constata Sérgio Mello. Mas o pioneiro “progressista” foi Abbey road, o 12º álbum dos Beatles, lançado em 1969. “Há ligação da primeira à última faixa, como que para contar uma história”, ensina o baterista. No Brasil, afirma Sérgio Hinds, não se vê estímulo para a formação de grupos do gênero. “Não há banda sem tecladista”, acrescenta o guitarrista. Além da importância do equipamento para quem domina o instrumento, ele é difícil de tocar. “Tem de estudar muito para aprender”, resume. “Daí a tendência de sair mais para o eletrônico”, emenda Flávio Venturini.
A marca do progressivo é a forma como ele se identifica com a música erudita, sobretudo em relação a temas e suítes-temas. A harmonia é essencial à instrumentação, lembra Flávio. Apesar de hoje usarem instrumentos digitais, os integrantes d’O Terço destacam que todos oferecem timbres idênticos aos da instrumentação setentista. “O importante é reproduzir os arranjos originais”, ressalta Flávio.
Não por acaso, o rock progressivo se expande com mais vigor em Minas Gerais em relação a outros estados. “Tem tudo a ver com a gente. Os próprios discos do Clube da Esquina, da década de 1970, são bem progressivos, assim como os instrumentais de Milton Nascimento”, analisa Venturini. Aliás, Joe Anderson, vocalista do Yes, é fã de Bituca. Cartoon e Cálix estão entre as jovens bandas mineiras progressivas citadas pelo cantor e tecladista ao se referir à boa fase do gênero por aqui.
Na rede 
No Cultural, bar musical de Juiz de Fora, os músicos d’O Terço começaram a perceber a renovação de seu público. “O mais velho da plateia tinha 25 anos, o que nos surpreendeu”, revela Sérgio Hinds, admitindo que as redes sociais se tornaram instrumento indispensável para essa mudança.
“A garotada também gosta do passado, de Beatles e de progressivo”, afirma Flávio Venturini. Este ano, a intenção do grupo é criar trabalho em estúdio, que funciona na casa de Flávio, num condomínio de luxo na Grande BH.
Hinds diz que a criação tem a ver com os ciclos da vida: “Os próprios músicos começam a estudar mais, a buscar música mais elaborada. O rock progressivo sempre foi produto disso”. Se na década de 1970 o gênero se sustentava graças ao boca a boca, Sérgio Mello diz que hoje isso se deve aos jovens e a seus laptops. “Pesquisa é a origem de tudo. Se éramos ratos de sebo, hoje estamos na rede”, conclui o baterista.
Ao vivo 
Lançado em CD e DVD, o trabalho que marcou a volta d’O Terço ao mundo fonográfico foi gravado no extinto Canecão carioca. Apesar da boa procura, o DVD foi retirado das prateleiras. O problema, de acordo com a banda, deve-se ao fato de o produtor PH Castanheira tê-lo lançado sem autorização da Agência Nacional de Cinema (Ancine), levando a gravadora a recolher o produto em decorrência de problemas jurídicos. O CD está disponível nas lojas e no site www.somlivre.com.br. 
 
O Terço
Sábado, 17 de março, às 21h. Grande Teatro do Palácio das Artes, Avenida Afonso Pena, 1.537, Centro. Plateia 1: R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia-entrada). Plateia 2: R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia). Plateia superior: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia). Classificação: livre. Informações: (31) 3236-7400.