Paulo Moura eterno

MÚSICA ETERNA
Biscoito Fino lança ‘Alento’, último CD de Paulo Moura, gravado com o Teatro do Som

Há cinco anos, Paulo Moura convidou Paulo Martins, do Teatro do Som, para fazer um disco juntos. O projeto começou a nascer já em 2005, as gravações se estenderam até 2009, mas quis o destino que o lançamento se desse após a morte do grande músico, que aconteceu em julho deste ano. E agora, finalmente chega às lojas Alento (Biscoito Fino), último disco gravado pelo artista.

 

Paulo Moura conheceu Paulo Martins em 1974, quando foi seu professor de flauta. De lá para cá, não se perderam mais de vista e quando Paulo Martins fundou o Teatro do Som, em 1985, Paulo Moura foi um eterno incentivador e participou de todos os discos lançados pelo grupo até hoje. O trabalho que celebra este encontro traz quatro composições inéditas do próprio Paulo Moura (em parceria com os músicos do grupo), além de quatro músicas pouco conhecidas de Alex Meirelles e uma canção pescada do baú do Paulo Moura, Mulatas e etc.

O Teatro do Som é formado por Alex Meirelles (teclados e programações, sintetizador, baixo sintetizado, percussão e voz), Marcos Zama (percussão), Paulo Martins (flauta e sintetizador), Ricardo Feijão (violão e baixo). Alento traz também as participações especiais de Marcio Malard (cello), Ricardo Silveira (violão e guitarra), Alessandro Bebe Kramer (acordeom), Daniel Guedes (violino) e Gabriel Grossi (gaita).

ALENTO

Um retrato de Paulo Moura? No palco, seu lugar de vida e ressurreição. E devêssemos começar pelo pé direito torcido em ponta de bailarino, esforço de afinação – para mover-se até o canto esquerdo dos lábios, largo sorriso escancarado. Depois estender-se até o dedo médio da mão que indica o trecho musical no compasso dos ensaios. E afastar-se, até enquadrá-lo por inteiro, gênio em alma de criança, jeito sem jeito de extrema sensualidade, surpreendido refestelado em colo de moça cheirosa.
Paulo é detalhe inusitado. Improvisando em corpo próprio melodias e modulações musicais que não termina de provocar. Não toca clarineta nem sax. É ele o instrumento, corpo inundado de suavidade, peito fluindo precisão e refinamento.
Como fazer para combinar os extremos? A experiência familiar humilde afro-descendente com a ocidentalidade da música erudita, de Beethoven aos desenhos contemporâneos de Luciano Lughetti. Pierr Boulez Talvez, deixar a luz pousar no azul surpreendente do olhar colorindo a pele de Moura. Contraste. Criação.
Paulo é ato em pleno voo, quase chegando. Onde? Em ideal de estética e técnica, anseio maior.
Ou simplesmente buscando companhia escolhida para o vinho que teima ser estrangeiro e o queijo de excelente estirpe. Não. Talvez esteja no outro extremo da cidade, é que aceitou convite do guardador de carros, outro fã, um café no balcão ao pé da esquina. Curioso. Meticuloso.
De repente, afobadinho. Andar pairando sobre nuvens de algodão branco que buscavam sua imaginação, desenhos de criador.
Mas, acima de tudo, Paulo é sopro, alento vital, ternura. Som feito de carne e espiritualidade.
Mistura inexplicável.
Entre vida e música, Paulo Moura fazia nenhuma diferença. Resistiu, entre dores e esperanças, durante seis longos anos a uma doença fatal. Enquanto pode soprar, inventava, estudava, mergulhava a cada manhã em partituras de grandes compositores contemporâneos e seu eterno Beethoven.
Gata siamesa ao colo, subia e descia as escadas: o estúdio, no piso térreo da casa, e a cozinha no segundo andar, onde petiscava as frutas maduras da estação – a cada duas horas. Praticava escalas, ensaiava o repertório do próximo show, burilava arranjos no computador, e quando tinham sede, regava com fios de água os tufos de renda portuguesa nascendo sob o canteiro da ampla janela com vistas ao mar de São Conrado. Assim passava-se a manhã.
À tarde, quando não estava em turnê ou ensaios, dizia uma vez por semana: “Vou até à casa do Paulinho”. Tradução: “Vou encontrar com Paulo Martins, Leandro Verdeal e Alex Meirelles para pesquisar sonoridades – eles têm paciência comigo.” Admirava-se que não se entediassem com os intermináveis detalhes harmônicos, a exigência de refinar o sopro, regular a orquestração, a inquietação com a desenho melódico, a mescla de sons sintetizados, o acrescentar de instrumentos
e timbres. Jogar música fora era maneira de conversar e estar entre nós.
Agora, aí está a gravação destas tardes e a companhia dos amigos músicos, os componentes do Teatro do Som. Em cada faixa deste CD, uma reflexão musical, um experimento.

Por Halina Grynberg

*No site da Biscoito Fino é possível ouvir techos das feixas de Alento.

**E como alento para a falta que Paulo Moura faz, veja por que ele era considerado o maior clarinetista brasileiro.

 

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