Os 80 de João: o mundo, fora

por Frederico Mendonça de Oliveira

Um expert incensado do jazz declarou ultimamente, a propósito dos 80 anos de João Gilberto, que considera o artista brasileiro a maior manifestação do cool. Gente que conhece as duas coisas, João e o cool, concorda sem titubear, porque é gritante. João é graveto especial para o feixe em que estarão Paul Desmond, Dave Brubeck, Chet Baker, Joe Morello (a despeito daquele solo desastroso em Take Five: parece um quebra-quebra no apartamento vizinho, nada cool) e, claro, Gerry Mulligan, além de outros menos visíveis no filme. Mas João é cool “no úrtimo”, como dizem em certas montanhas ao sul do estado de Minas Gerais. E, se a definição de cool para a maioria dos que ainda não voltaram às árvores ainda traz dúvidas ou vaguezas, não se importe: a de Bossa Nova está mais distante e confusa ainda. Mas João foi a Bossa Nova, depois manifesta uma neobossanova, desde sempre é inarredavelmente samba, hoje é canseira de doer quando se apresentando ao vivo, desde por volta daquele JG in Montreux, quando concretizou seu último estilo de se apresentar: sentado, balançando a perna, tocando interminavelmente sambas que acabam logo muito chatos pra quem ouve, sejam leigos ou não… e agora chegou aos 80.

O homem é realmente um especialmente, como disse Guimarães Rosa sobre sua personagem João Urúgem. Primeiro, lutou como louco para desencadear a mais deslumbrante manifestação de modernidade já vivida no Brasil, quando realizou Chega de Saudade escoltado pelo gênio de um Tom Jobim. Seus três primeiros discos são um tesouro, sendo os dois primeiros um banho de cool em todos os sentidos. Uma das definições pra cool é “elegante”. O gato, portanto, é cool. O cão, jamais. Mas o que emerge de Chega de Saudade e O Amor, o Sorriso e a Flor, os dois primeiros discos, é pura e cintilante elegância, a ponto de podermos dizer que a partir dali a música brasileira foi feita música civilizada, ingressando na era da estética funcionando como fator determinante e regulador.

 Isso foi o miolo da Bossa Nova. O terceiro disco, João Gilberto, já foi definido por João como sendo… samba. Mas foi bifacial: com Walter Wanderley e grupo – órgão Hammond B3 e o trompete do Papudinho em uníssonos divinos – João fez releituras irretocáveis de Dorival Caymmi, Saudade da Bahia e Samba da minha terra, além da também memorável Trem de ferro, marchinha de Lauro Maia, em que a combinação B3/trompete tornaram a faixa uma peça de fina apreciação. A outra parte do disco foi gravada pedindo o socorro do Tom, e ali já se manifestava publicamente a desarmonia entre os dois homens que fizeram valer a harmonia definitivamente para a música brasileira. 

A entrada de Walter Wanderley nessa história é coisa que muita gente se perguntou por quê. Eu, aliás, me perguntei. Um belo dia, estando na casa da Maricene Costa, em São Paulo, ouvi dela que, quando namorou o João e os dois passeavam pela noite na Major Sertório, foco da modernidade na Paulicéia, uma porta de boate se abriu e João ouviu o som que vinha lá de dentro. Era o som do grupo do WW. João exclamou: “É isso que eu quero!”, e daí não sei como se deu a coisa, mas o resultado todos sabemos: o terceiro disco teve parte dele exibindo esse som.

João Gilberto foi o músico mais definidor para a música popular brasileira. Tom também foi gigante, mas o violão de João fez a diferença, além de ter sido praticamente dele a concepção musical renovadora, o quê e o como da modernidade. A virada produzida pela pesquisa deste baiano de Juazeiro simplesmente inverteu a visão de música popular no mundo.

Mesmo tendo sido logo alvo de fortes mordidas dos tubarões do comércio, como o desvio Burt Baccarah e quejandos, mesmo tendo logo sido manipulada para amaciar o comercialóide pop visando suprir um mercado da burrice light, a criação de João bateu fundo mesmo foi no jazz e na questão estética geral, do que nasceram trabalhos de maestros como Michel Legrand e os hoje magníficos Claus Oggerman, Jeremy Lubbock, Robert Farnon, sem contar Claire Fischer e André Previn. E não esqueçamos que a internacionalização do som do Stan Getz não se daria sem o Getz/Gilberto. João não fez tudo isso ciente de que seria assim. O que ele fez foi fazer o que fez; o resto explodiu porque explodiu.

E hoje? Bem, hoje é Tiririca. Hoje é nada. João é o maior dos equívocos: senta num banquinho, toca horas a mesma coisa monocórdica balançando as pernas, canta dez vezes ad nauseam cada canção, e a platéia diante dele é um monte de leigos bovinos entediados mas cumprindo o papel que a mídia lhes impõe: admirar o grande gênio, mesmo sem entender uma nota do que ele toca.

Quanto ao cool, nosso querido João, que sempre falou mansinho e baixinho, andou trocando uns berros com um vizinho no prédio onde mora no Leblon, Rio. Não sei o que o vizinho fez, mas ele virou bicho. E o vizinho revidou no mesmo nível, esmurrando a porta dele João e acusando-o de fumar maconha direto. E João fuma mesmo, sempre. Bem, e daí? Ele já é inimputável… mas, qualquer coisa, é só pedir socorro ao Boca de Sovaco FHC, que agora abraçou a causa da descriminalização do jererê. Quem sabe? O Gallochmouth é capaz até de querer pitar unzinho com o João… mas vai levar é chá de cadeira na portaria!

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O Instrumental aniversaria – Maurício Heinhorn

 
 
O Nota Geraes homenageia hoje, 30 de maio, o aniversário de Maurício Heinhorn, o maior gaitista da história da música brasileira.
 
 
Além de excepcional instrumentista, Heinhorn também tem no currículo alguma das mais saborosas composições da bossa-nova, como Batida Diferente.
 
 
Já nesse vídeo, Maurício é aclamado por um dos maiores nomes do jazz, Toots Thielmans.
 
 
 
Biografia

texto produzido pelo site Clube do Jazzwww.clubedojazz.com.br

Moisés David Einhorn nasceu no Rio de Janeiro, em 29 de maio de 1932. Esse carioca nascido na Lapa e criado no Flamengo, praticamente trocou as fraldas pela gaita. Filho de pais poloneses e gaitistas, ganhou sua primeira harmônica aos 6 anos.

Aos treze já dominava uma harmônica de boca, tendo com ela integrado vários conjuntos e participado de vários programas de Rádio, inclusive do famoso Papel Carbono, de Renato Murce, na Rádio Nacional.

Desde então tem viajado pelo mundo participando de tournées e de gravações com artistas brasileiros e estrangeiros tais como Sarah Vaughan, Fred Cole, Sebastião Tapajós, Baden Powell e Hélio Delmiro. Em 1975 grava seu primeiro disco: “The Oscar Winners”, no mercado foi lançado com o título “A Era de Ouro do Cinema”.

Em 1979 lança o segundo, com o seu próprio nome, disponível apenas na Europa.Parceiro de Eumir Deodato, Ugo Marota, Johnny Alf, Durval Ferreira, e entre outros encontrou seu amigo e violonista Sebastião Tapajós, a sua parceria mais constante e duradoura.

Com presença marcante no movimento da bossa nova, compôs “Batida Diferente”, além de “Tristeza de nós dois”, “Estamos aí” e “Alvorada”.
Formou com Hélio Delmiro e o baixista Arismar do Espírito Santo um trio dos mais requisitados nas noites cariocas. Em 1983 o trio se apresentou com enorme sucesso no Teatro Nacional de Brasília.

Em 1985 se apresentou no Maksoud Plaza em São Paulo, espetáculo que foi considerado antológico ao lado de Leni Andrade, Johnny Alf e Paulo Moura.Ainda em 85. Participou do I Free Jazz Festival com seu conjunto (Chimeli, Arismar, Bob Wyatt) e junto com o trio de Toots Thielemans.

No último espetáculo de Bobby McFerrin no Canecão, ao reconhecer Maurício na platéia convidou-o para uma canja, tendo tocado juntos “Summertime” e um blues improvisado. Dois dias depois, quando se apresentava no People, Bobby acompanhado do trompetista Chuck Mangione retribuíram a canja do Canecão tocando ao lado de Maurício, num encontro considerado memorável.

Simples, afável modesto e companheiro, Mauricio Einhorn é desses artistas considerado como patrimônio da cultura musical brasileira. Com muita técnica e sensibilidade ele é respeitado e querido em todo o mundo.