Ummagumma Classic Rock Festival e a economia da comunhão em Três Pontas

Três Pontas recebeu no último fim de semana (29 e 30 de abril) o Ummagumma Classic Rock Festival, tendo como anfitrião o grupo local que arrasta multidões de exigentes fãs de Pink Floyd há mais de uma década Brasil a fora. Reunir bandas covers e outras de pegada mais autoral num evento fechado, pago, aparentemente não traz grandes novidades. Mas é no detalhe que mora o diabo, deuses e orixás que só dão as caras numa conjugação de fatores nada casuais, como nesses dois dias mágicos que geraram momentos únicos pra quem os desfrutou.

A cidade berço de Milton Nascimento por si só já carrega uma aura atrativa, mexe com o imaginário, fascina o olhar de quem circula por charmosas ruas, praças e se depara com sua igreja majestosa. Porém isso não basta, mas também está no caldo que deu chão a uma geração contemporânea de talentosos e competentes músicos da cidade e região. A seleção de grupos que se apresentou no festival espelha exatamente isso, em formações que transcendem a desgastada palavra “cover”.

Ummagumma

Da irreverência, repertório catártico e presença de palco forte e política da Marginália, encabeçado por Isabela Morais, passando pela maestria sonora do Compasso Lunnar – com releituras e autorais lisérgicas num rico diálogo com o Clube da Esquina, rock e jazz presenteadas pela guitarra do mago Fredera – até tributos de Stones e Doors à altura do desafio de se recriar sonoridades tão únicas. Quem viu sabe que isso foi alcançado. Já para o Ummagumma o momento teve caráter ainda mais especial, por ter sido o primeiro show do grupo em sua terra natal na dimensão que plateias de Belo Horizonte, Rio de Janeiro e outros pontos já estão acostumados, além de ter sido ali a estreia da turnê “You Gotta Be Grazy”. A paisagem sonora proporcionada diante de um som 5.1 (acima do quadrofônico), num ambiente a céu aberto levou o público de milhares de pessoas a uma experiência auditiva incrível, sobretudo pela releitura do lendário álbum “Animals”, fazendo com que urros, falas, ganidos e grunhidos permeassem todo o local, desafiando ouvidos numa sinestesia por si só lisérgica. Arrepios.

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A qualidade do Ummagumma e sua longevidade de reconhecimento e público passam por dois fatores. Primeiramente o comprometimento da equipe liderada por Bruno Morais, trocando o ego (muito presente em formações do gênero) por profissionalismo e perfeccionismo ao extremo. O outro fator é a própria música do Pink Floyd, cuja interpretação por terceiros vai além do “cover” – vale dizer mais uma vez. Da pegada feroz de “Dogs” à transcendência de “Us and Them”, o som floydiano se mostra imersivo, religioso – interpreta-lo e ouvi-lo é uma forma de devoção e oração atemporais, seja no palco ou na plateia.

Só que, novamente, pegar bandas competentes e jogar na panela e ligar o fogo não faz um festival. O conceito e a produção invisíveis é que dão o tempero certo. Difícil pontuar algo que tenha dado errado ou desagradado. Para o público parecíamos estar diante de um parque de diversões de rock, tudo na medida e à disposição pra saciar os desejos. Numa época em que festivais viraram sinônimo de sacrifício, filas intermináveis e preços exorbitantes, o Ummagumma Classic Rock Festival foi o paraíso – local de fácil acesso, serviço de estacionamento, preços justos de comes e bebes de qualidade. E o lugar? Mais adequado impossível. Compacto, tudo num local só e bem distribuído para o ótimo público presente. Em shows rigorosamente pontuais, ao sair do mergulho musical do Compasso Lunnar no imponente palco principal já tinha início um rock de responsa no palco secundário (mas não menos cativante). Saía-se da catarse do Ummagumma e, antes de respirar e pegar outra cerveja, o Sissibonaflá já atacava de Beatles a poucos passos dali. E há que se destacar que todo esse ambiente mágico sob medida – com iluminação especial, porcos voadores e personagens do The Wall dentre as árvores – é simplesmente o quintal da casa da família anfitriã – o Verdes Eventos. Impossível o rock se sentir mais em casa.

Compasso Lunnar

Fredera

Cabe aqui um parênteses. Nos últimos tempos percebe-se um certo pudor da boa música de se profissionalizar, de arriscar a ser um produto de qualidade (natural pela exclusão midiática e dificuldade enfrentada por artistas e instrumentistas). No entanto isso acaba por legar as realizações de qualidade de produção unicamente ao hoje dominante mercado sertanejo ou a festivais de tal proporção que esvaziam a comunhão intrínseca a música. Se rock e MPB, que já dialogaram com as massas hoje é algo alternativo, mais do que nunca é preciso fortalecer esses nichos com profissionalismo – psicodelia e música marginal não precisa ser sinônimo de amadorismo pra ser verdadeira. E a primeira edição deste festival provou exatamente isso, numa cadeia produtiva em que boa música também aquece a economia local, transporte de vãs entre cidades vizinhas, hotéis, bares, comércio.

Mas há uma outra economia social difícil de se mensurar, e talvez a mais valiosa, gerada nestes dois dias. Refiro-me ao brilho nos olhos, sorrisos, abraços, planos e viagens entre amigos pelas rodovias e estradas de terra na companhia da Serra de Três Pontas, aos encontros entre familiares e à surpresa de rever pessoas queridas que a maré da vida vai nos distanciando e que de repente uma boa onda coloca lado a lado novamente, à confraternização entre iguais e diferentes onde tanto um senhor de mais de 70 anos de camisa preta quanto um jovem descobrindo o rock se sentem igualmente bem acolhidos. Essa é a verdadeira economia a ser fomentada. Exatamente nos dias em que nos despedimos da presença física de Belchior (não de sua música e seu legado eternos), estrada de terra a dentro, o pensando já faz planos para o próximo Ummagumma Classic Rock Festival. Não nos esqueçamos, “a felicidade é uma arma quente…”

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Dia desses sonhei Tom Jobim

Texto escrito especialmente para o blog Massa Crítica, do historiador e pesquisador Luiz Henrique Assis Garcia.

Dia desses sonhei Tom Jobim. Antes dele, porém, me veio um cheiro de terra molhada em fim de tarde de março, com o calor logo a misturar as estações. Estava eu não sei em que espaço, num tempo suspenso e inebriante, mas igualmente premonitório de algo grandioso que me rondava, como se estivesse dentro da introdução de “O Boto”. Em meio a sons e gostos que ainda não distinguia, eis que o vi ao longe, sozinho numa trilha, camisa aberta, uma mão a segurar o chapéu e a outra a apontar, com olhar atento, o remexer das folhas na copa de uma figueira. É o vento ventando, é uma ave no céu. Talvez jereba imitando o vento, expandindo suas asas soberanas. Tom sorriu. No turbilhão próprio dos sonhos, logo fui tragado pelo desfilar de cenas indistintas. Tomando assento lentamente, passei a distinguir as cores do cenário no qual eu me corporificava, pouco coerentes com a primeiro. Estava eu numa festa, à beira de uma piscina e também de um imenso rio. Pessoas dançavam alegremente, com ares de ritual indígena, ao som de um carimbó. Aromas inebriavam aquele ambiente insólito. Em estado de vertigem, atento que ao meu lado agora está Tom Jobim, confortavelmente segurando uma caipirinha de carambola. “O Brasil é uma coisa né, meu jovem”, disse soltando  uma jocosa gargalhada.

Tom Jobim, em sua casa.

Dando por mim em tal situação, tinha eu pressa de não perder aquela oportunidade de conversa ribeira com Antonio Carlos Jobim. “E a bossa nova, a música brasileira, onde foram parar?” Mas o maestro não parecia interessado naquele assunto. Queria saber da pimenta-de-cheiro que salpicava seu olfato, dos vestidos que cintilavam naquela dança. Mas sobretudo se divertia em identificar sabiás, rolinhas, bem-ti-vis e toda a natureza que resplandecia em nosso entorno. Eis que, me passando a caipirinha de carambola, parecia cansado, nostálgico, como se quisesse talvez descansar à sombra de uma palmeira que já não há. Where is te paradise i’ve made for you. Where is te greeen? And where is the blue? “O Brasil é um caso sério, meu rapaz”, disse ele voltando a sorrir, apertando os lábios para melhor sentir o gosto da cachaça que sorvia. Quando já bolava eu assuntos e questões para dar prosseguimento àquele rumo de nossa prosa, eis que me encontro novamente sozinho naquela Terra Brasilis, com o sol a desmaiar ao longe. O sonho é o mistério profundo. É o queira ou não queira.

Revendo a sensibilidade de “O Palhaço”

Interessado por uma homenagem à filmografia de Paulo José no Canal Brasil, revi “O Palhaço”. Lembro do trabalho ter me cativado logo que assisti à estreia no cinema. Mas agora, de forma mais distanciada, pude sacar o grande filme que Selton Mello construiu – pra mim, um dos melhores nacionais dessa década. Apesar das claras referências a longas do gênero, como “La Strada”, de Fellini, é um olhar original e de grande beleza de fotografia, com luz quase sempre natural, naqueles momentos mágicos do amanhecer e entardecer. Assim como em “O Cheiro do Ralo”, cada cena parece ser um sketch, com roteiro, humor e cenário próprios, quase isolados (prisão e discurso do delegado, conversa com prostituta, mecânico). O nonsense sempre dá as caras, como nas viagens em torno do desejo do personagem central ter um ventilador.

O Palhaço

Mas além das paisagens e sotaque saborosamente sulmineiros, o que realmente me cativou foi a proposta de fé no sentimento e humor simples, puro, com cenas de forte impacto visual a serviço de um afeto que chega a dar nó na garganta – o cinema brasileiro é bom nisso, mas geralmente a serviço de revelar os desencontros. Num desfile de atores de alto calibre em personagens cuidadosamente tecidos para evocar o humor preciso que já irradia de suas personalidades – Telda Bara, Tonico Ferreira, Moacir Franco -, considero marcante o momento em que o personagem redescobre que sua vida tem como alimento a risada alheia logo num momento banal, em que “Zé Bonitinho” conta piadas simples num jantar, mas despertando riso frouxo nos presentes, e quando, na carroceria de um caminhão, faz graça para uma retirante e resgata seu tino. Na cena final, aparece o gênio do diretor no travelling em que a menina, após sua estreia no circo, percorre esse espaço de afeto, dor e magia, revelando a alma de cada um que o constrói.

Com propósito de preservação e difusão cultural, acervo de discos de vinil em Alfenas possui cerca de 6 mil unidades

Reportagem e imagens: João Marcos Veiga

Reportagem publicada no jornal Correio Trespontano

Num primeiro momento, temos poucos sinais do que nos espera ao descer um lance de escadas de uma casa situada no Aeroporto, pacato bairro residencial na cidade de Alfenas. Mas é ali no porão da residência – em frente a um bem cuidado pomar perfumado por limoeiros, mamoeiros, acerolas e pitaias – que nos deparamos com um dos maiores acervos de discos do sul de Minas, com mais de 6 mil exemplares.

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No espaço de cerca de 60 metros quadrados está representada boa parte da produção fonográfica nacional e internacional do século 20. Elvis Presley, Chico Buarque, Janis Joplin, Odair José, Michael Jackson – ao percorrer com os olhos as quatro paredes tomadas por capas, entra-se em vertigem de referências dos mais variados estilos. O acervo pertence a Marco Valério Tiso Veiga (54), farmacêutico e funcionário do Fórum Trabalhista da cidade.

A coleção teve início de forma despretensiosa. Da adolescência já trazia os discos de rock progressivo; aos poucos foi ficando com os LPs de irmãos e amigos, numa época em que se dava pouco valor aos bolachões, deixados de lado (ou até na lata de lixo) em preferênciaaos emergentes CD e MP3 nas décadas de 1990 e 2000. De família de músicos, não era difícil reunir pequenos acervos de qualidade dispersos entre pessoas próximas – Marco confere espaço de destaque ali a todos os trabalhos do irmão Wagner Tiso, em sua maioria com dedicatórias aos pais e sobrinhos.

Mas a proposta tomou realmente outra dimensão com as primeiras doações em maior volume. “A primeira alavancada veio com o tio Paulinho”, conta sobre o tio de sua esposa, que se desprendeu de 200 discos. Na festa de aniversário de 50 anos, Marco pediu de presente discos de vinil. Um amigo de juventude, Keninho, de Carmo da Cachoeira, foi além – passou de uma vez só 80 unidades do fino da música brasileira. “Depois vieram outras, como do Brexó, de Três Pontas, e de pessoas que ficavam sabendo que eu estava colecionando. Discos de gente que tinha morrido e a família queria se desfazer. Até que veio a do Bituca”, relembra Marco Valério, sobre os mil vinis que ganhou de seu padrinho Milton Nascimento.

A aquisição do acervo ilustre (parte do que dispõe o cantor residente no Rio de Janeiro) trouxe discos de claro valor simbólico, uma vez que vários dos materiais guardam dedicatórias de jovens que se iniciavam à época no mundo musical (como o uruguaio Jorge Drexler) e de amigos artistas, como Tavinho Moura, Nivaldo Ornelas, Marcus Vianna, Juarez Moreira, dentre outros, revelando admiração mútua intimidade entre parceiros. Algumas mostram-se raras, como um disco dado pelo lendário baterista Dom Um Romão a Milton – a assinatura é de 1974, em Nova York, mesmo ano do lançamento do trabalho em solo americano. Outras capas trazem apenas uma assinatura de Milton, para atestar que faziam parte de sua eclética coleção, a exemplo de um disco de Wanderléa de 1977.

Ocupando cinco prateleiras, não é difícil perceber que o maior destaque ali é dado à discografia de Milton Nascimento, posicionada em ordem cronológica a partir do álbum lançado em 1967 que leva o nome do artista, além de edições especiais, como a reunião numa mesma edição de “Minas” (1975) e “Geraes” (1976). O acervo alfenense ainda traz outras discografias completas, como dos grupos Pink Floyd, Gênesis e Som Imaginário.

Apesar de alocar LPs especiais e muitas vezes raros de alto valor no mercado informal (Beatles, Mutantes, Secos e Molhados, Janis Joplin, Tropicália, “disco do Tênis” de Lô Borges), o acervo alfenense não tem restrição de gênero. “A coleção tem de tudo. Estilo tem qualquer um, carnaval, clássico, gospel, novela”, informa Marco. Assim, separados por poucos centímetros podem estar Xuxa e Hermeto Pascoal, Bee Gees e Mozart. Mesmo com tal diversidade e quantidade, o acervo tem organização criteriosa, disposta em gêneros e com preocupação na disposição visual, limpeza e arejamento, inclusive com produtos que controlam a humidade no ambiente.

Marco Valério passa diariamente ao menos duas horas dedicadas exclusivamente ao acervo. Cada LP que adquire passa por um processo que inclui a lavagem do disco (com secagem ambiente), limpeza, troca de plástico, avaliação da capa – algumas são refeitas e inserção numa tabela digital que distingue informações diversas, como doador. “A ideia não é só colecionar, mas também recuperar discos, já que muitos chegam sem condições.” Num segundo momento, Marco ouve o álbum todo (a sua disposição estão quatro pick-ups, dois amplificadores e quatro caixas de som de alta qualidade), incluindo a marcação à caneta da faixa que mais gostou. O empenho e entusiasmo com tal ritual são bem conhecidos do que acompanham a saga do alfenense.

Apesar da dedicação ao acervo, Marco Valério não estabelece um sistema formal de aquisição, troca e venda. Tudo é avaliado ocasião a ocasião. Mesmo com um boom na procura por vinis, no interior ainda é barato adquiri-los, até por R$ 2. Em algumas poucas ocasiões opta por compras pela internet em busca de exemplares faltantes. “Já tenho quase tudo que queria. Agora tô comprando pouco”, conta. Já as trocas e vendas ocorrem informalmente e em eventos específicos na cidade, como o Encontro dos Músicos de Alfenas e região. Mas tem um detalhe – só entram em negociação os vinis repetidos. E os mais especiais para o colecionador (como os de Milton Nascimento), só são passados pra frente caso ele tenha outros dois muito bem guardados no porão musical.

Com a expansão dos cursos da Unifal, observou-se uma maior busca por LPs na cidade, com algumas trocaspor iniciativas de bares, como o Januário. No entanto enfraqueceram-se outros espaços de socialização para esse propósito, como a que ocorria aos domingos na feira antes do vendedor Sinval não mais cruzar a estrada de Boa Esperança à procura sobretudo de discos sertanejos – o que permitia a Marco frutíferas trocas por almejados exemplares de MPB e rock.

Apesar do acervo ser particular e não estar aberto regularmente, Marco Valério recebe pessoas interessadas em conhecer, adquirir e trocar vinis. Mas o intuito é ir além do aspecto mercantil, tornando o espaço um ponto de vivência cultural. Para 2017 ele planeja realizar no próprio local pequenos seminários e debates sobre gêneros e artistas, ministrados por músicos e professores residentes na cidade e regados a vinho – naturalmente com os conhecimentos repassados sendo exemplificados com discos do acervo e com o canto dos pássaros do quintal só sendo interrompidos pelo delicioso chiado do bom e velho disco de vinil.

 

Ícone do rock progressivo nacional, O Terço continua na ativa

publicado no jornal Estado de Minas em 16.03.12

A brincadeira parte do único remanescente da banda original – coincidentemente, o mais velho da turma. “Já estamos encomendando a banheira de formol e a câmara hiperbárica”, diz, com a indispensável ironia, Sérgio Hinds (guitarra, viola e vocal), de 63 anos. Ao lado de Sérgio Magrão (baixo e vocal), de 61, e Sérgio Mello (bateria e percussão), de 40, ele dá sustentação à reverenciada formação clássica de O Terço, liderada por Flávio Venturini (piano, teclados e vocal), de 62.

Na ativa desde 2005, quando voltaram aos palcos para gravar CD e DVD ao vivo, os integrantes da lenda viva do progressivo nacional assumem, sem medo, a posição de dinossauros do rock. No show deste sábadoà noite, no Grande Teatro do Palácio das Artes, não vão faltar hinos (Criaturas da noite, Hey amigo e Casa encantada), além de criações mais recentes (Suíte e Antes do sol chegar, entre outras). Adepto do gênero e líder do SagradoCoração da Terra, o violinista Marcos Vianna é o convidado da turma.
Ao mexer no baú, Flávio Venturini acabou encontrando canções inéditas em fitas de rolo que espera reaproveitar em novos discos. Entre elas está a ópera-rock Raposa azul, parceria dele com Hinds. A história do grupo é narrada em pequenas crônicas no inédito livro Eu e O Terço, de Irinéa Maria Ribeiro, viúva do baterista Luís Moreno: a banda que sempre privilegiou hard rock, folk e MPB aderiu ao progressivo exatamente depois da chegada de Venturini. Hoje, o mais fanático pelo gênero é Sérgio Mello, o integrante mais jovem da turma.
“Continuo com a carteira de sócio atleta da jurisdição pró-rock”, brinca o baterista, que ouve e pesquisa o progressivo no mundo inteiro, especialmente na Europa, onde o gênero se expande em grandes festivais promovidos na Alemanha e na Dinamarca. “Os maiores nomes são os que atualmente fazem grandes shows no Brasil”, afirma Mello. O progressivo, explica ele, nasceu com os Beatles, que juntaram rock’n’roll e música clássica sob a batuta do maestro George Martin.
Sgt. Pepper’s é um clássico”, constata Sérgio Mello. Mas o pioneiro “progressista” foi Abbey road, o 12º álbum dos Beatles, lançado em 1969. “Há ligação da primeira à última faixa, como que para contar uma história”, ensina o baterista. No Brasil, afirma Sérgio Hinds, não se vê estímulo para a formação de grupos do gênero. “Não há banda sem tecladista”, acrescenta o guitarrista. Além da importância do equipamento para quem domina o instrumento, ele é difícil de tocar. “Tem de estudar muito para aprender”, resume. “Daí a tendência de sair mais para o eletrônico”, emenda Flávio Venturini.
A marca do progressivo é a forma como ele se identifica com a música erudita, sobretudo em relação a temas e suítes-temas. A harmonia é essencial à instrumentação, lembra Flávio. Apesar de hoje usarem instrumentos digitais, os integrantes d’O Terço destacam que todos oferecem timbres idênticos aos da instrumentação setentista. “O importante é reproduzir os arranjos originais”, ressalta Flávio.
Não por acaso, o rock progressivo se expande com mais vigor em Minas Gerais em relação a outros estados. “Tem tudo a ver com a gente. Os próprios discos do Clube da Esquina, da década de 1970, são bem progressivos, assim como os instrumentais de Milton Nascimento”, analisa Venturini. Aliás, Joe Anderson, vocalista do Yes, é fã de Bituca. Cartoon e Cálix estão entre as jovens bandas mineiras progressivas citadas pelo cantor e tecladista ao se referir à boa fase do gênero por aqui.
Na rede 
No Cultural, bar musical de Juiz de Fora, os músicos d’O Terço começaram a perceber a renovação de seu público. “O mais velho da plateia tinha 25 anos, o que nos surpreendeu”, revela Sérgio Hinds, admitindo que as redes sociais se tornaram instrumento indispensável para essa mudança.
“A garotada também gosta do passado, de Beatles e de progressivo”, afirma Flávio Venturini. Este ano, a intenção do grupo é criar trabalho em estúdio, que funciona na casa de Flávio, num condomínio de luxo na Grande BH.
Hinds diz que a criação tem a ver com os ciclos da vida: “Os próprios músicos começam a estudar mais, a buscar música mais elaborada. O rock progressivo sempre foi produto disso”. Se na década de 1970 o gênero se sustentava graças ao boca a boca, Sérgio Mello diz que hoje isso se deve aos jovens e a seus laptops. “Pesquisa é a origem de tudo. Se éramos ratos de sebo, hoje estamos na rede”, conclui o baterista.
Ao vivo 
Lançado em CD e DVD, o trabalho que marcou a volta d’O Terço ao mundo fonográfico foi gravado no extinto Canecão carioca. Apesar da boa procura, o DVD foi retirado das prateleiras. O problema, de acordo com a banda, deve-se ao fato de o produtor PH Castanheira tê-lo lançado sem autorização da Agência Nacional de Cinema (Ancine), levando a gravadora a recolher o produto em decorrência de problemas jurídicos. O CD está disponível nas lojas e no site www.somlivre.com.br. 
 
O Terço
Sábado, 17 de março, às 21h. Grande Teatro do Palácio das Artes, Avenida Afonso Pena, 1.537, Centro. Plateia 1: R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia-entrada). Plateia 2: R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia). Plateia superior: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia). Classificação: livre. Informações: (31) 3236-7400.

O coração mineiro de Danilo Caymmi

No fim de semana em que o artista se apresenta no projeto Sesc MPB em BH, Notas Geraes relembra grande disco do caçula dos Caymmi

Em 1977, Danilo Caymmi lançava seu primeiro disco solo. E logo na primeira frase da faixa inicial, o carioca já deixava claro qual é o espírito desse belíssimo trabalho: “Vou por aí, levando um coração mineiro..”

Pois é, “Cheiro Verde” traz uma aconchegante atmosfera das Minas Gerais (terra de sua mãe Stella Maris), tal qual uma prosa à beira do fogão-a-lenha. Mas também evoca temperos de uma época decisiva para a música brasileira, de assimilação do cancioneiro de Caymmi e Jobim e, paralelamente, de uma inventividade e coragem para traçar novas identidades.

Resultado disso é a construção de dez faixas saborosíssimas, passando por sambas cativantes, como “Mineiro”, pela bela valsa “Juliana”, até chegar em músicas de extrema irreverência e mesmo psicodelismo, como “Racha Cartola” e Vivo ou Morto”.

A relação de músicos do disco mostra que Danilo se cercava na década de 70 de um time de grandes instrumentistas (com vários mineiros, obviamente), como Cristóvão Bastos, Airto Moreira, Hélvius Vilela, Pascoal Meirelles, Nelson Ângelo e Novelli. Apesar de Toninho Horta não estar no disco, o universo do guitarrista parece ser lembrado a todo momento, como em “Codajás”.

Não por coincidência, o primeiro álbum do caçula dos Caymmi foi o sensacional “Beto Guedes, Novelli, Danilo Caymmi e Toninho Horta”, de 1973, com uma contra-capa marcante.

No reino da palavra, as letras de Ana Terra (cujo selo independente lançou o disco) também dão as tonalidades de um momento especial vivido por gente talentosa de coração aberto:  “Pé de vento, você que me faz água mansa de rio..” (em “Lua do meio-dia”, aos poucos decifra-se que uma das vozes do uníssono é de… Milton Nascimento). Por falar em voz, “Cheiro Verde” apresenta um Danilo Caymmi muito diferente do timbre grave que marcou sua trajetória (na “Banda Nova” de Tom Jobim, por exemplo). Durante todo o disco, ele se desloca por uma região vocal aguda e audaciosa, como em “Botina”. Há que se destacar também a flauta de Danilo, que dialoga com vertentes de jazz e rock (um Ian Anderson das montanhas?)

Pra quem estiver em Belo Horizonte nesse fim de semana, um excelente programa é cruzar a famigerada Feira Hippie da Avenida Afonso Pena e adentrar o oásis do Parque Municipal para curtir, de graça, um show de Danilo Caymmi. A apresentação dá início ao Sesc MPB 2012, que já trouxe artistas como Leila Pinheiro, Joyce e Boca Livre. O bem-sucedido projeto tem o formato de sempre ser aberto por um artista local, que depois divide o palco com o convidado especial antes de passar a bola. Dessa vez, a escolhida foi Regina Souza, cantora competente sobrinha de Betinho, Henfil e Chico Mário (ela gravou um disco só com composições do violonista).

Para esse domingo, 18 de março, a partir das 11horas, é esperado o Danilo Caymmi que marcou época com músicas como “Andança” e “Casaco Marrom”. Mas fica a expectativa de rolar algo daquele saudoso 1977..