Verbalizando a música…MÚSICA BRASILEIRA E CINISMO GERAL

 por Frederico Mendonça de Oliveira

A última real manifestação nacional de música brasileira como arte e cultura foi a Bossa Nova. Até houve quem acusasse o movimento de ser a americanização do samba. Diziam isso o Tinhorão e um bando de leigos que não alcançaram entender a harmonia impressionista, mas a caravana passou bonito. Diziam que o movimento fora concebido em Copacabana, que os rapazes se vestiam assim e assado, que tudo ocorreu em apartamentão à beira-mar e produzido por uma elite carioca, por aí.

João Gilberto e Tom Jobim à beira-mar

 Bem, que “pensem” o que quiserem. O importante é que os músicos de verdade no mundo inteiro enxergaram com instantâneo deslumbramento o conteúdo real da coisa, a despeito dos problemas de alguns incapazes despeitados. E a Bossa Nova ficou, não só no Brasil – aqui muito menos que alhures; aliás, o que de bom permanece por aqui? – mas mundo afora, cultuada por jazzistas e especialistas em música na forma de um gênero sagrado.

Veio a intervenção, para desespero geral e para confirmar que somos proveta de testes para o Império. Começou o horror com a instauração dos festivais de canção, do que resultaram as úteis deformidades tão caras aos interventores. Era essencial desviar o curso daquele Brasil que despontava como o melhor em tudo no mundo: arte, ciência, até futebol. Só não tínhamos tecnologia industrial, mas JK já ia providenciando isso. Aliás, por ser um presidente mais sacudido e informal que seus antecessores e porque imprimiu uma feição de modernidade ao País, acabou apelidado de “presidente Bossa Nova”. Só no jeito de governar, claro, pois musicalmente oscilava entre uma porta e uma toupeira. Aliás, como todos os que o antecederam e sucederam. Coitados.

Juscelino Kubitschek, o presidente bossa-nova

A intervenção veio braba: habilmente incluindo grandes talentos musicais surgentes como Milton, Chico, Edu Lobo, Dori Caymmi, Francis Hime, Caetano e Gil – os dois últimos com ressalvas –, a ação de sucessão imposta à Bossa Nova ganhou credibilidade além do grande golpe torpe de arregimentar e dar a leigos o direito de validar formas de canção. Então coisas lindas iam sendo misturadas a porcariada visando instituir descartabilidade e consumo de canção, ao contrário do espírito da Bossa Nova: pode-se afirmar que toda a produção do movimento era durável e visava qualidade, não priorizando vender, que era eventual, e quase tudo realizado  naqueles tempos ia para mãos de músicos ou estudiosos. A Bossa Nova foi música viva.

Veio o cinismo como por encanto. Assim os agentes do Império operam. De júris compostos por gente normalmente sem conhecimento musical nenhum, de platéias de leigos normalmente imbecis em música e de outros fatores cuidadosamente trabalhados veio o grande desvio: os festivais foram impostos e se alastraram como opção de enriquecimento para os compositores que chegavam naquela safra, e o que era cultura e arte foi virando lazer e entretenimento, e só os músicos perceberam que desastre se operava naquela alteração. Só músicos viam que a música fora criminosamente relativizada, que a “novidade” era destrutiva e sem alternativa qualquer. 

“Deixai-me fazer as canções de um povo e não precisarei lhe ditar as leis”, disse Kon Fu Tsé, que os agentes do Império encarregados de intervir em culturas denominaram Confúcio, visando associar filosofia a confusão. E assim a canção multinacional, que ocorreu concomitantemente à ditadura militar, reinou por cerca de 20 anos, estando todos os que trilharam carreiras via EMI-Odeon (inglesa), Philips-Polygran (holandesa), BMG-Ariola (alemã) e mais CBS e RCA (americanas) muito ricos. E o povo caiu como patinho em vários embustes, sendo o mais ridículo deles a ilusão de que a canção resistia à ditadura. Muito pelo contrário, mesmo que os “canários” afetassem insatisfação para com o poder. Ocorria que eram protegidos por ele, sendo o episódio Vandré e os “exílios” na era Médici simples pantomima. Vandré saiu lesado porque já era um confuso, apenas aflorou o broto a partir do episódio da chata Caminhando – que as platéias de leigos, claro, amaram, por ser musicalmente primária, ao alcance deles.

E desde 1985 veio a sucessão da MPB: axé, breganojo, pagode, pocotó. Bom proveito, Brasil!

*Frederico Mendonça de Oliveira é músico, artista plástico e escritor

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