O coração mineiro de Danilo Caymmi

No fim de semana em que o artista se apresenta no projeto Sesc MPB em BH, Notas Geraes relembra grande disco do caçula dos Caymmi

Em 1977, Danilo Caymmi lançava seu primeiro disco solo. E logo na primeira frase da faixa inicial, o carioca já deixava claro qual é o espírito desse belíssimo trabalho: “Vou por aí, levando um coração mineiro..”

Pois é, “Cheiro Verde” traz uma aconchegante atmosfera das Minas Gerais (terra de sua mãe Stella Maris), tal qual uma prosa à beira do fogão-a-lenha. Mas também evoca temperos de uma época decisiva para a música brasileira, de assimilação do cancioneiro de Caymmi e Jobim e, paralelamente, de uma inventividade e coragem para traçar novas identidades.

Resultado disso é a construção de dez faixas saborosíssimas, passando por sambas cativantes, como “Mineiro”, pela bela valsa “Juliana”, até chegar em músicas de extrema irreverência e mesmo psicodelismo, como “Racha Cartola” e Vivo ou Morto”.

A relação de músicos do disco mostra que Danilo se cercava na década de 70 de um time de grandes instrumentistas (com vários mineiros, obviamente), como Cristóvão Bastos, Airto Moreira, Hélvius Vilela, Pascoal Meirelles, Nelson Ângelo e Novelli. Apesar de Toninho Horta não estar no disco, o universo do guitarrista parece ser lembrado a todo momento, como em “Codajás”.

Não por coincidência, o primeiro álbum do caçula dos Caymmi foi o sensacional “Beto Guedes, Novelli, Danilo Caymmi e Toninho Horta”, de 1973, com uma contra-capa marcante.

No reino da palavra, as letras de Ana Terra (cujo selo independente lançou o disco) também dão as tonalidades de um momento especial vivido por gente talentosa de coração aberto:  “Pé de vento, você que me faz água mansa de rio..” (em “Lua do meio-dia”, aos poucos decifra-se que uma das vozes do uníssono é de… Milton Nascimento). Por falar em voz, “Cheiro Verde” apresenta um Danilo Caymmi muito diferente do timbre grave que marcou sua trajetória (na “Banda Nova” de Tom Jobim, por exemplo). Durante todo o disco, ele se desloca por uma região vocal aguda e audaciosa, como em “Botina”. Há que se destacar também a flauta de Danilo, que dialoga com vertentes de jazz e rock (um Ian Anderson das montanhas?)

Pra quem estiver em Belo Horizonte nesse fim de semana, um excelente programa é cruzar a famigerada Feira Hippie da Avenida Afonso Pena e adentrar o oásis do Parque Municipal para curtir, de graça, um show de Danilo Caymmi. A apresentação dá início ao Sesc MPB 2012, que já trouxe artistas como Leila Pinheiro, Joyce e Boca Livre. O bem-sucedido projeto tem o formato de sempre ser aberto por um artista local, que depois divide o palco com o convidado especial antes de passar a bola. Dessa vez, a escolhida foi Regina Souza, cantora competente sobrinha de Betinho, Henfil e Chico Mário (ela gravou um disco só com composições do violonista).

Para esse domingo, 18 de março, a partir das 11horas, é esperado o Danilo Caymmi que marcou época com músicas como “Andança” e “Casaco Marrom”. Mas fica a expectativa de rolar algo daquele saudoso 1977..