INSTRUMENTAL, A NOVA VOZ DA MÚSICA MINEIRA

fotos de Élcio Paraíso

 

foto: Élcio Paraíso

Festivais e prêmios têm, na grande maioria das vezes, a marca negativa de acirrar desnecessariamente o espírito competitivo entre os concorrentes e deixar um ar de injustiça quanto ao resultado final. Mas não foi isso o que se viu nas noites de 30 e 31 de março e primeiro de abril no Teatro Sesiminas em Belo Horizonte. O XII Prêmio BDMG Instrumental levou 12 grandes artistas ao palco – exatamente na edição realizada no ano de 2012 – e mostrou uma diversidade enorme de propostas musicais com altíssimo nível de execução.

Assim como o jazz, a música instrumental não tem modelos ou regras, apenas referências que se abrem a um universo infinito de possibilidades harmônicas e rítmicas. Cada um dos concorrentes mostrou um pouco dessas nuances, seja evocando baião, samba, experimentalismos ou mesmo o jazz – as influências evocadas e anunciadas iam de Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti a Chris Potter. E isso reflete exatamente uma geração especial da cena instrumental belorizontina, já que, apesar de variações estilísticas, muitos ali são amigos e compartilham formações na noite dos bares (grande escola para quase todos) e projetos artísticos. Isso foi visível não só para quem acompanha a cena mineira, bastando ter verificado que não foram raros os instrumentistas que acompanharam mais de um concorrente.

E exatamente pelo alto nível presenciado, excelentes candidatos ficaram pelo caminho, como o saxofonista Sérgio Danilo, que apresentou composições envolventes com influências declaradas de gafieira e fez uma homenagem a K-ximbinho, com “Ternurinha”, num lindo arranjo acompanhado pelo violão de sete cordas de Thiago Delegado (um dos vencedores da edição de 2011).

A grande final, que levou seis concorrentes da primeira noite e dois da segunda, mostrou uma constatação da música instrumental: não basta ser um virtuose (característica compartilhada por quase todos selecionados), há que se ter um diferencial. Nesse sentido, um dos pontos mais bacanas do Prêmio BDMG é a exigência de que dois dos três temas sejam composições próprias e o terceiro um arranjo. Com isso, descortinam-se criadores excepcionais. Outro ponto interessante é não ter um único vencedor, mas sim quatro, que além de R$9 mil, terão direito a um show em BH e outro em SP, através do Sesc TV, com convidados especiais. Mesmo os dois finalistas não premiados deixaram ótima impressão. Walmir Carvalho, ao saxofone, mostrou elegância e fez uma releitura do mestre Moacir Santos. Já o também saxofonista Bernardo Frabris, com grande domínio, passou de influências do Clube da Esquina e Jazz ao rock progressivo.

foto: Élcio Paraíso

Mas não dá pra questionar os méritos do quarteto vencedor. Gilson Brito foi o candidato com maior pontuação. Na saída do teatro, o juri (formado por feras como Teco Cardoso, do Quarteto Pau Brasil, e Mauro Rodrigues) ainda tentava digerir a técnica fabulosa do goiano (o edital do prêmio exige que o candidato seja residente em Minas), que aprontou as maiores estripulias ao violão sem transtejar uma nota sequer – um desafio enorme em performances complexas. Gilson, que levou para o palco um pouco de sua trajetória erudita, foi acompanhado pelo clarinete de Matteo Ricciardi, eleito como o melhor instrumentista da edição, destacando-se na interpretação de Beatriz (Chico Buarque e Edu Lobo), que arrancou lágrimas da platéia.

foto: Élcio Paraíso

Merecida também a escolha de Thiago Nunes. O guitarrista mineiro tira um som ao mesmo tempo discreto e arrojado de sua guitarra, no melhor estilo da escola de Toninho Horta. Não por acaso, na hora de fazer uma releitura, optou por “Francisca”, de Toninho.

Como compositor ele também passa com boa desenvoltura do universo de influências locais para o jazz – o instrumentista teve aulas em Nova York com dois ícones do gênero, Jack Wilkins e Lage Lund. Resultado disso foi uma apresentação agradabilíssima e de alto nível.

Élcio Paraíso

O maior premiado do XII BDMG Instrumental foi Rafael Martini (mais do que merecido, aos ouvidos do Notas Geraes). O pianista foi aquele que demonstrou maior inventividade nas composições, sem exibicionismos. A banda (piano, bateria, contrabaixo, clarinete, clarone e flautas) foi explorada num experimentalismo que conjugava raro calor e catarse de público. A proposta diferenciada para o grupo também foi reconhecida com o prêmio de melhor instrumentista acompanhante para o baterista Antônio Loureiro.

No último tema, uma síntese da dialética de Rafael: um magistral arranjo de “Tempo do Mar”, composição pouco conhecida de Tom Jobim que adentra profundezas onde só o maestro soberano poderia chegar. A releitura rendeu a Martini um segundo prêmio do júri, de melhor arranjo.

E para fechar o quarteto vencedor, Pablo Dias. Tanto no anúncio final quanto nas duas apresentações (seletiva e final), o jovem de 20 anos foi ovacionado pelo público – em parte por seu carisma no palco e pelas divertidíssimas entrevistas que concedeu no intervalo (salvando a proposta sonolenta de bate-papo com os concorrentes). Mas não há dúvidas, a revelação – no sentido mais verdadeiro – do festival é realmente um fenômeno. O talento nato do cavaquinista foi refinado tocando em bares com grupos de samba e chorinho na Praça Sete.

O domínio do instrumento é impressionante, lembrando Yamandu Costa e Hamilton de Holanda (o primeiro ele já acompanhou; e o segundo é seu ídolo, que ele pretende ter como convidado no show para o Sesc TV, “se o cachê der”). Mas o que ninguém esperava era presenciar duas composições instrumentais tão maduras e virtuosas. A escolha de “Passarim” para finalizar seu número também demonstrou sensibilidade de repertório.

Pablo se dizia maravilhado por poder estar em um mesmo festival que seus ídolos (ele é aluno de Thiago Nunes). E é exatamente ali que ele pretende ficar. Disse que uma hora gostaria de ser íntimo e poder chamar tantos feras pelo apelido, assim como os instrumentistas se relacionavam nos bastidores. E esse momento não demorou a chegar. Após a noite de premiação, muitos vencedores, acompanhados de amigos, e jurados seguiram para a tradicional Casa dos Contos. Em mesas lado a lado, em pouco tempo ele já tinha ganhado a admiração e amizade de Wagão e Juá. Wagão é Wagner Tiso, presidente do júri da edição do prêmio; e Juá é Juarez Moreira, que fez a seleção dos concorrentes iniciais do festival.

Com a noite conduzida pelo vinho, Juarez Moreira buscava contextualizar o atual estágio da música mineira para o crítico e poeta Antônio Carlos Miguel (também jurado do festival). “Esse pessoal é quem conseguiu realmente dar continuidade e reinventar a seu modo o legado de qualidade musical deixado pelo Clube da Esquina”, analisou o guitarrista, violonista e compositor. “E mesmo tendo focado nas canções, nós sempre tivemos a música instrumental ali dentro do Clube da Esquina”, lembrou o pianista e arranjador, fisgando os nomes de Nivaldo Ornelas e Hélvius Vilela para esse exemplo.

Todos os concorrentes se dizem muito confortáveis produzindo em Belo Horizonte – esse ano diversos álbuns serão lançados (como o de Rafael Martini), nos quais muitos deles se revezam como artista solo e acompanhante. E com um cenário como esse, é aqui que eles pretendem ficar. Pelo visto, depois de mais de 120 anos da capital mineira, parece ser a música instrumental a romper o legado (ou maldição) de vermos nossos maiores artistas obrigados a fazer carreira em outras freguesias (os exemplos vão dos modernistas, como Drummond, ao Clube da Esquina). E uma voz que se afirma com muito talento e personalidade.

Os 80 de João: o mundo, fora

por Frederico Mendonça de Oliveira

Um expert incensado do jazz declarou ultimamente, a propósito dos 80 anos de João Gilberto, que considera o artista brasileiro a maior manifestação do cool. Gente que conhece as duas coisas, João e o cool, concorda sem titubear, porque é gritante. João é graveto especial para o feixe em que estarão Paul Desmond, Dave Brubeck, Chet Baker, Joe Morello (a despeito daquele solo desastroso em Take Five: parece um quebra-quebra no apartamento vizinho, nada cool) e, claro, Gerry Mulligan, além de outros menos visíveis no filme. Mas João é cool “no úrtimo”, como dizem em certas montanhas ao sul do estado de Minas Gerais. E, se a definição de cool para a maioria dos que ainda não voltaram às árvores ainda traz dúvidas ou vaguezas, não se importe: a de Bossa Nova está mais distante e confusa ainda. Mas João foi a Bossa Nova, depois manifesta uma neobossanova, desde sempre é inarredavelmente samba, hoje é canseira de doer quando se apresentando ao vivo, desde por volta daquele JG in Montreux, quando concretizou seu último estilo de se apresentar: sentado, balançando a perna, tocando interminavelmente sambas que acabam logo muito chatos pra quem ouve, sejam leigos ou não… e agora chegou aos 80.

O homem é realmente um especialmente, como disse Guimarães Rosa sobre sua personagem João Urúgem. Primeiro, lutou como louco para desencadear a mais deslumbrante manifestação de modernidade já vivida no Brasil, quando realizou Chega de Saudade escoltado pelo gênio de um Tom Jobim. Seus três primeiros discos são um tesouro, sendo os dois primeiros um banho de cool em todos os sentidos. Uma das definições pra cool é “elegante”. O gato, portanto, é cool. O cão, jamais. Mas o que emerge de Chega de Saudade e O Amor, o Sorriso e a Flor, os dois primeiros discos, é pura e cintilante elegância, a ponto de podermos dizer que a partir dali a música brasileira foi feita música civilizada, ingressando na era da estética funcionando como fator determinante e regulador.

 Isso foi o miolo da Bossa Nova. O terceiro disco, João Gilberto, já foi definido por João como sendo… samba. Mas foi bifacial: com Walter Wanderley e grupo – órgão Hammond B3 e o trompete do Papudinho em uníssonos divinos – João fez releituras irretocáveis de Dorival Caymmi, Saudade da Bahia e Samba da minha terra, além da também memorável Trem de ferro, marchinha de Lauro Maia, em que a combinação B3/trompete tornaram a faixa uma peça de fina apreciação. A outra parte do disco foi gravada pedindo o socorro do Tom, e ali já se manifestava publicamente a desarmonia entre os dois homens que fizeram valer a harmonia definitivamente para a música brasileira. 

A entrada de Walter Wanderley nessa história é coisa que muita gente se perguntou por quê. Eu, aliás, me perguntei. Um belo dia, estando na casa da Maricene Costa, em São Paulo, ouvi dela que, quando namorou o João e os dois passeavam pela noite na Major Sertório, foco da modernidade na Paulicéia, uma porta de boate se abriu e João ouviu o som que vinha lá de dentro. Era o som do grupo do WW. João exclamou: “É isso que eu quero!”, e daí não sei como se deu a coisa, mas o resultado todos sabemos: o terceiro disco teve parte dele exibindo esse som.

João Gilberto foi o músico mais definidor para a música popular brasileira. Tom também foi gigante, mas o violão de João fez a diferença, além de ter sido praticamente dele a concepção musical renovadora, o quê e o como da modernidade. A virada produzida pela pesquisa deste baiano de Juazeiro simplesmente inverteu a visão de música popular no mundo.

Mesmo tendo sido logo alvo de fortes mordidas dos tubarões do comércio, como o desvio Burt Baccarah e quejandos, mesmo tendo logo sido manipulada para amaciar o comercialóide pop visando suprir um mercado da burrice light, a criação de João bateu fundo mesmo foi no jazz e na questão estética geral, do que nasceram trabalhos de maestros como Michel Legrand e os hoje magníficos Claus Oggerman, Jeremy Lubbock, Robert Farnon, sem contar Claire Fischer e André Previn. E não esqueçamos que a internacionalização do som do Stan Getz não se daria sem o Getz/Gilberto. João não fez tudo isso ciente de que seria assim. O que ele fez foi fazer o que fez; o resto explodiu porque explodiu.

E hoje? Bem, hoje é Tiririca. Hoje é nada. João é o maior dos equívocos: senta num banquinho, toca horas a mesma coisa monocórdica balançando as pernas, canta dez vezes ad nauseam cada canção, e a platéia diante dele é um monte de leigos bovinos entediados mas cumprindo o papel que a mídia lhes impõe: admirar o grande gênio, mesmo sem entender uma nota do que ele toca.

Quanto ao cool, nosso querido João, que sempre falou mansinho e baixinho, andou trocando uns berros com um vizinho no prédio onde mora no Leblon, Rio. Não sei o que o vizinho fez, mas ele virou bicho. E o vizinho revidou no mesmo nível, esmurrando a porta dele João e acusando-o de fumar maconha direto. E João fuma mesmo, sempre. Bem, e daí? Ele já é inimputável… mas, qualquer coisa, é só pedir socorro ao Boca de Sovaco FHC, que agora abraçou a causa da descriminalização do jererê. Quem sabe? O Gallochmouth é capaz até de querer pitar unzinho com o João… mas vai levar é chá de cadeira na portaria!